sábado, outubro 30, 2010

A FORÇA DA MULHER

Tudo é muito, mas muito difícil para uma mulher. Como é para um negro, um indígena, um catador de material reciclável, um morador de rua. Primeiro, elas precisam provar que são gente, que têm a mesma inteligência e capacidade que o homem, e que não são rivais, mas parceiras. Segundo, quando chegam a algum espaço, cargo ou posição relevante, vem logo a cobrança, diferente da feita para o homem: "Mas como? Já está há tanto tempo no governo e ainda não fez nada?" - "Só podia ser mulher, sem capacidade e sem experiência!" - "Mulher é mesmo desastrada. Tem que botar um homem no lugar". Terceiro, se o seu lugar histórico é na cozinha, ‘no e do lar’, como podem elas hoje serem médicas, engenheiras, pedreiras, metalúrgicas, motoristas, e agora, até presidentas! Seu lugar é na retaguarda. Afinal, ‘atrás de um homem sempre tem uma grande mulher!...’.

Em 2010, terceiro milênio, muitos espaços ainda estão vedados para as mulheres. No máximo, sua profissão é ser professora: ganha pouco e tem a paciência necessária. Quando estão em empregos ou funções iguais ao homem, seus salários continuam menores. Seu esforço para mostrar competência tem que ser duplo ou triplo.

As mulheres brasileiras só puderam votar em 1934, há menos de oitenta anos, portanto. Pobres e trabalhadores sempre serviram de bucha de canhão das elites de pensamento europeu e cabeça norte-americana. Ser escravo (ainda hoje, muitas vezes) fazia (faz, na prática) parte da rotina de casa. A mulher negra é servidora da patroa. A Universidade até há pouco era para poucos e bem situados na vida.

Assim tem sido ao longo do tempo com as Dilmas, as Marinas, com cada mulher deste país e do mundo.

Ao mesmo tempo, aí reside a força da mulher. Não porque gestou um filho por nove meses ou o amamentou, mas porque enfrentou todas as dificuldades e obstáculos do mundo, todos os preconceitos... e venceu! Porque vem de baixo e sabe sua força. Porque se afirma com sua sabedoria e dedicação. Porque precisa demonstrar a cada dia que é igual ou superior a qualquer um, a qualquer homem e é dona do seu nariz e destino. Porque não se deixa mais enganar, porque não esmorece, porque acredita em si mesma.

O presidente Lula vem dizendo que uma das coisas mais importantes de seu governo é o fato de os humilhados e ofendidos históricos deste país terem recuperado ou conquistado sua auto-estima. Quando foi sancionado o Projeto que cria a Política nacional de Resíduos sólidos, disse: "Severino e Madalena (dois catadores) reconquistaram o respeito próprio, a dignidade e o direito de andar de cabeça erguida nas ruas deste país. Quando um ser humano descobre ‘eu posso’, sai da frente, porque vai ser um grande vencedor".

As mulheres são maioria na sociedade, dizem todos os censos. As mulheres estão em todas as atividades, profissões, trabalhos e espaços. Conquistaram o direito de não serem mais discriminadas, de ser gente. Cada centímetro a mais que qualquer mulher ocupou neste país não foi dado de presente. Foi conquista dura, em geral sofrida. E não pode mais haver recuo, não haverá recuo.

Nestes tempos de campanha eleitoral, quando uma mulher pode ser a primeira presidenta do Brasil, quatro palavras ou frases podem expressar e condensar o que se passa neste momento histórico. Pedro Tierra escreveu, no poema Os Filhos da Paixão: "Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras./ Temos sonhos organizados./ Queremos um país onde não se matem as crianças/ que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro./ Onde os filhos da margem tenha direito à terra,/ ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,/ às histórias que povoam nossa imaginação, às raízes da nossa alegria".

As palavras de Dilma Rousseff, candidata a presidente no Teatro Casa Grande no Rio: "Nós mudamos alguns tabus. O principal deles é de que o país não poderia crescer distribuindo renda. Hoje isso parece óbvio, mas nunca foi óbvio. Por trás desse tabu está uma visão mercantil do Brasil. Uma visão que incorpora uma parte da população nos benefícios da modernidade e pouco se importa com a outra parte. Nós seremos uma nação desenvolvida. Mas não queremos ser os Estados Unidos da América do Sul, onde uma grande parte da população negra está na cadeia e uma parte da população branca pobre mora em trailers e não tem acesso às condições fundamentais de sobrevivência digna. Por isso, nós hoje somos respeitados no mundo. E vamos ser mais, pois ninguém respeita um país que deixa parte de seu povo na miséria".

Palavras de Chico Buarque no Teatro Casa Grande: "Venho aqui reiterar meu apoio entusiasmado à campanha da Dilma, essa mulher de fibra, que já passou por tudo, não tem medo de nada. Vai herdar o senso de justiça social, um marco do governo Lula, um governo que não corteja os poderosos de sempre, não despreza os sem-terra, os professores e os garis. A forma de Lula governar é diferente. O Brasil que queremos não fala fino com Washington e nem grosso com Bolívia e Paraguai. Por isso, é ouvido e respeitado no mundo. Nunca antes na História desse país houve algo assim".

E as palavras da filósofa Marilena Chauí: "A minha geração viu um negro na presidência da África do Sul, um índio na presidência da Bolívia, um negro presidente dos Estados Unidos, um operário dirigindo o Brasil e verá uma mulher presidir o nosso país".

Se assim é, assim será.
Selvino Heck -  Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

JADER BARBALHO: AGORA, O OCASO?

Jader Barbalho esperava passar dos dois milhões de votos como candidato a senador. Essa votação o consagraria no retorno à convivência dos seus pares na câmara alta, da qual foi presidente e da qual, meses depois, saiu pelas portas dos fundos, renunciando para não ser cassado. Não chegou, porém, aos 1,8 milhão obtidos pelo empresário Flexa Ribeiro, o mais votado de todos, considerado como sem chances quando a campanha eleitoral começou. Jader teve apenas um pouco mais de votos do que Paulo Rocha, do PT, ambos na faixa dos 1,7 milhão.

Antes da apuração dos votos, esse quadro era considerado, se não impossível, pelo menos improvável. O resultado indica o início do ocaso do maior líder político que o Pará teve desde o final do baratismo, a principal fonte de poder entre os anos 1930 e 1960? A resposta não é tão simples quanto parece.

A perda de mais de 200 mil votos entre a realidade e a sua expectativa deve-se não diretamente a qualquer abalo na liderança pessoal de Jader Barbalho, mas à notícia de que seus votos seriam anulados porque o Tribunal Superior Eleitoral mantivera a impugnação à sua candidatura, por ser ficha suja. Uma das coisas que o eleitor brasileiro mais teme e menos deseja é perder o voto. Este costuma ser o maior patrimônio imaterial (e mesmo material) para a maioria da população e há sacrifícios a superar até o momento de exercer esse direito. Milhares de votos migraram de Jader para os outros candidatos.

A esmagadora maioria, seguramente, não para Paulo Rocha, antípoda do PMDB (apesar das relações mais do que amistosas entre o petista e Jader). Esses votos foram para Flexa Ribeiro, graças a um mecanismo colocado em funcionamento pela primeira vez na disputa senatorial no Pará: os principais partidos apresentaram apenas um candidato, mesmo estando em jogo duas vagas. Flexa, que chegou ao senado como suplente de Duciomar Costa, subindo quando o titular deixou o cargo para assumir a prefeitura de Belém, se apresentou como a melhor opção para o eleitor do PSDB e como o segundo nome para o do PMDB. Fez dobradinha virtual com Jader Barbalho, além de aproveitar a onda em favor de Simão Jatene. Já o eleitor petista, que votou em Paulo Rocha para uma das cadeiras, descarregou em favor de Marinor Brito como segunda opção, ao invés de seguir a orientação de Ana Júlia em favor de Jader, dada mais para inglês ver do que para petista aceitar.

Mais importante do que a perda dos mais de 200 mil votos que tinha em sua conta antes da campanha desencadeada pelo jornal O Liberal pelo voto útil, sustentando em seguidas manchetes de primeira página que quem votasse em Jader teria seu voto anulado, foi o fato de o líder peemedebista ainda conseguir ser o segundo mais votado. Com esse desempenho, deixou de fora um dos candidatos a senador pelo PT que mais o presidente Lula apoiou no país.

Mas se um analista isento é capaz de perceber essa circunstância, para o eleitor o que importa é que Jader não é mais o número um, nem voltou a ser o imbatível em que se tornara depois da derrota de 1998. Essa aura, de grande valor simbólico, ele a perdeu. É um prejuízo considerável.

O ex-governador poderia recuperar esse dano funcionando mais uma vez como o fiel da balança na disputa pelo governo do Estado no 2º turno. Os votos do PMDB serão, de fato, decisivos para confirmar a vitória de Jatene ou a -cada vez mais difícil- recuperação de Ana Júlia. Desta vez Jader sabe que saiu enfraquecido do 1º turno e que esperar só o desfavorecerá. Por isso, embora não assumindo a decisão, mandou logo anunciar -por correligionário e pelo seu jornal, o Diário do Pará- que a tendência é de não apoiar nenhum dos candidatos. Mas não falou em Jatene. Mandou dizer, por ora, que não apoiará Ana Júlia. Porque talvez acabe, se não apoiando Jatene, manifestando simpatia pelo tucano. [No domingo, 17, liberou os peemedebistas.]

Isto se o que já parece definitivo de fato se concretizar de direito: a manutenção da sua impugnação pelo Supremo Tribunal Federal. Essa perspectiva se tornou mais forte quando o ministro Joaquim Barbosa foi escolhido para relatar o recurso de Jader contra a decisão do Tribunal Superior Eleitoral. É dado como certo o voto de Barbosa contra Jader (o que induziria a posição também contra Paulo Rocha). O STF estaria disposto a contrariar a vontade da opinião pública, mesmo em defesa do mais ortodoxo entendimento sobre a vigência da lei da ficha limpa já na eleição deste ano e a retroatividade dos seus efeitos? Parece que não. Uma decisão contrária será uma completa surpresa.

Jader já ficou dois anos sem qualquer mandato e sem poder institucional - e não só sobreviveu, como voltou ao controle de um terço dos votos no Pará. Ninguém duvida, nem seus piores inimigos, que mesmo nessa circunstância, agravada por não contar mais com um aliado no Palácio do Planalto (onde o apoio de Lula se esvaneceu e o de Dilma -ou de Serra- não existe), Jader poderia voltar a se eleger deputado federal na próxima disputa que haverá.

Mas provavelmente sem a condição que hoje o distingue de todos os demais políticos em atividade, colocando-o no isolamento de uma posição superior. É o que acontecerá se sua presença dominante deixar de ser entrave para o avanço de outras lideranças, inclusive as que foram mantidas encolhidas dentro do PMDB. Mas, talvez, não aquela na qual Jader mais aposta e da qual mais precisa: a do filho, Hélder Barbalho, prefeito de Ananindeua, o segundo mais populoso município do Estado. Lá, Jatene teve quase 45% dos votos, Ana Júlia menos de 30% e Domingos Juvenil menos de 16%. Sem comando sobre seus próprios domínios administrativos, Hélder não tem a dimensão política do pai. E Jader Fontenele Barbalho já nem é mais o mesmo.

[Nota da edição: O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem (27/10/10) que a Lei da Ficha Limpa deve ser aplicada neste ano. O STF julgava recurso de Jader Barbalho (PMDB-PA), que recebeu 1,8 milhão de votos e teria sido eleito senador, mas os magistrados estabeleceram que prevalece a decisão anterior do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que barrou Jader].





Lúcio Flávio Pinto -  Jornalista paraense.
Fonte: Site Adital

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