quinta-feira, fevereiro 07, 2013

FAUSTO : ALEKSANDR SOKUROV TRANSFORMA LENDA SECULAR EM ESPETÁCULO VISUAL




Fausto: Faust
Rússia , 2011 - 140 min
Drama / Fantasia

Direção:
Aleksandr Sokurov

Roteiro:
Aleksandr Sokurov, Marina Koreneva

Elenco:
Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Antje Lewald, Florian Brückner, Sigurður Skúlason

A lenda começa na Alemanha, aproximadamente entre os anos 1470 e 1540. O Dr. Johann Georg Faust empenha seus esforços na busca por conhecimento, aplicando-se aos estudos da filosofia, da medicina e da alquimia. Insatisfeito com os resultados, limitado por sua condição humana, o excêntrico personagem acaba enveredando pelo charlatanismo e dá origem à história de um diabólico acordo assinado com sangue, trocando sua alma pela compreensão dos mistérios do universo.

O motivo faustiano desde então tem servido à arte. Versões de Christopher Marlowe, Thomas Mann e Johann Wolfgang von Goethe, esta última a mais famosa, perpetuaram o mito e inspiraram por sua vez uma outra série de adaptações, a última pelas mãos de Aleksandr Sokurov. O cineasta russo recria em Fausto (Faust, 2011) o famoso pacto entre o intelectual insatisfeito e o demônio agiota, transformando a lenda em um espetáculo visual de trevas, luz, agonia e poder.

Livremente baseado no poema épico de Goethe, o filme mostra um Fausto (Johannes Zeiler) desiludido, dilacerando cadáveres em busca da alma humana, e faminto por conta dos parcos retornos financeiros da sua busca por conhecimento. Sem dinheiro para comer ou transportar até o cemitério a matéria-prima dos seus estudos, o intelectual, depois de ser desprezado pelo pai, acaba por recorrer à ajuda do dono de uma casa de penhores (Anton Adasinsky), a versão de Sokurov para o diabo Mefistófeles.

O demônio recusa o empréstimo em troca de um anel, o que Fausto julgava ser seu bem mais valioso, e dá início ao processo de sedução que levará ao famoso pacto assinado com sangue. A estranha criatura de aparência frágil se apresenta ao médico como um ser evoluído, um retrato do Übermensch de Nietzsche – o super-homem, aquele que supera os limites da condição humana pela transvaloração (onde não existe certo e errado, apenas desejo) e pela busca por poder. Conceito de evolução que será posto em prática por meio da lavadeira Margarete (Isolda Dychauk), personagem que desencadeia o processo de corrupção de Fausto – ele vê na jovem a luz para sua insatisfação, enquanto o diabo a descobre como objeto de barganha.

No desenvolvimento da sua versão da lenda, o filme consegue ser ao mesmo tempo elegante e óbvio nas metáforas que cria para seus personagens. Passagens estreitas, lugares apertados e lotados representam a agonia de Fausto, seu desencaixe e descontentamento com a realidade que o cerca. Por meio da fotografia primorosa de Bruno Delbonnel (indicado ao Oscar por seus trabalhos em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Eterno Amor e Harry Potter e o Enigma do Príncipe), o filme reflete a essência de Margarete, que surge como uma figura iluminada, capaz de tomar a tela antes dominada pelas trevas. Figuras estranhas pontuam a narrativa, assumindo em formas concretas as dúvidas, os arrependimentos e a ganância do seu personagem principal.

Fausto encerra o estudo de Sokurov sobre os efeitos do poder iniciado em Moloch (1999), sobre Adolf Hitler, seguido por Taurus (2001), sobre Lênin, e O Sol (2005), sobre o imperador japonês Michinomiya Hiroito. A conclusão toma para si a lenda em uma tentativa de compreender as motivações humanas, criando uma alegoria da corrupção, onde certo e errado não se opõem, mas são superados pelo desejo. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza - o primeiro prêmio principal em um grande festival europeu do diretor de Arca Russa (antes Sokurov levara melhor roteiro e o prêmio da crítica em Cannes por Moloch e Pai e Filho, respectivamente) - o Fausto  de Sokurov não é um filme fácil, com seus longos diálogos em alemão e sua mistura de sonho e realidade. Sua beleza e força visual, contudo, o transformam em uma versão única da secular história, que não abandona o espectador após o rolar dos créditos e o leva a avaliar seu preço. Quanto vale a sua alma?


Fonte: Omelete Uol

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