sexta-feira, abril 18, 2008

PALAVRAS VOAM NO VENTO

A pequena Dora adorava dizer coisas feias.
Sim, ela tinha aquele terrível hábito.
Dora adorava falar bobagens, xingamentos, palavras ruins.

Sua mãe ficava triste com aquilo. Muito triste.
Certa manhã, antes de sair para o trabalho, a mãe de Dora pediu: 'Minha filha, experimente dizer coisas bonitas'. A garota fez pouco caso.


A senhora prosseguiu: 'Tu sabias que as palavras voam no vento?
Se dizes coisas ruins, o mal sai por aí e se multiplica. Mas se dizes coisas belas... o vento faz com que a bondade se espalhe pelo mundo'.


A jovenzinha ficou intrigada. Assim que sua mãe se foi, ela decidiu testar a teoria. Abriu a porta de casa e foi para a rua.
Olhou em volta... olhou para o céu..
Tudo parecia sem graça.
Pensou consigo mesma: tinha que dizer uma palavra bonita?
Mas qual? Escolheu uma, depois outra.
Por fim, encheu o peito e gritou com toda a força: AMOR!!!!...


Uma enorme e fortíssima rajada de vento se fez.
As folhas das árvores em volta balançaram intensamente.


Uma borboleta começou a brincar no ar. Giros lindos, giros incríveis.
Dora seguiu o bichinho. Viu quando ele se pôs a dançar ao redor de uma moça.


Viu a moça sorrir com a borboleta. Viu a moça começar a dançar como uma bailarina.
Seguiu a moça.

Viu quando ela, cheia de alegria,
mandou beijos para uma andorinha que sobrevoava um jardim.

A andorinha bateu suas asas com grande encantamento e magia.
A ave se lançou às nuvens. Rodou, rodou.
De repente, deu um rasante sobre um canteiro e pegou com seu bico uma delicada flor vermelha.


Dora seguiu a andorinha. Viu quando o pássaro deixou a flor cair nas mãos de um rapaz.
Um rapaz que estava sentando num banco de praça.


O moço sorriu para a flor que acabara de receber.
Ficou fascinado, capturado por um imenso contentamento.

Tomou para si o caderno que estava ao seu lado,
arrancou uma folha em branco e começou a escrever.
Escreveu um poema.
Um suave e emocionado poema.


Dora viu quando o rapaz leu para o vento o poema.
E os versos diziam: 'Ame porque o amor significa cantar. Cante, cante, cante.
Porque quem canta encanta e sabe melhor amar'.

Nossa amiga viu quando uma súbita ventania arrancou o papel da mão do jovem e levou embora sua poesia.

Dora tentou correr para não perder de vista o escrito.
Tentou e tentou. Mas nada conseguiu. O vento foi mais ágil.
O papel com o poema se perdeu cidade afora.


Cansada com toda aquela andança, a menina voltou para casa.
Sentou-se na soleira de seu lar e suspirou.
Estava com saudade.
Com muitas saudades de sua mãe.


Percebeu mais do que nunca como ela era importante em sua vida.

Caia a tarde quando nossa garota, ainda sentada na calçada de casa, viu sua mãe retornar do trabalho.

A senhora correu, abraçou fortemente sua filha e disse-lhe ao ouvido: 'Eu te amo, minha princesa. Eu te amo muito, muito mesmo'.

Dora se comoveu e disse: 'Também te amo, mamãe. Muito, muito mesmo'.

A mãe se afastou um pouquinho, abriu a bolsa e tirou de lá de dentro um presente: um pedaço de papel dobrado em quatro. Disse ela: 'Tome, minha filha. É para ti. Eu estava na janela do escritório e o vento me trouxe esse pedaço de papel. Leia... É para ti'.


Dora abriu o papel e chorou ao ler o poema que nele estava escrito.
Diziam os versos: 'Ame porque o amor significa cantar. Cante, cante, cante.
Porque quem canta encanta e sabe melhor amar'.


Texto: Carlos Correia Santos é poeta, contista e dramaturgo. Autor vencedor do premio Funarte de Dramaturgia, categoria infanto-juvenil em 2003 e 2005. Roteirista selecionado no Edital Curta Criança do Ministério da Cultura.

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