sexta-feira, janeiro 08, 2010

DOCE VONTADE


Ah, como é doce essa vontade que sinto, agora.
Vontade de roubar de sua boca o beijo mais gostoso,
Vontade de abraçar seu corpo e me aconchegar em seu peito.
Vontade de estar perto, ouvir sua voz e falar com você.
E sem tempo determinado, rirmos juntos das bobagens da vida.

Ah, como é doce essa vontade que sinto, agora.
Vontade de deixar de lado os conceitos e cair no desvario do seu querer.
E nessa loucura me deixar envolver, inteira, dentro do seu prazer.
Na ânsia dos desejos calar nossas vozes ,
Sanar essa ansiedade que está dentro de nós...


Ah, como é doce essa vontade que sinto, agora.
Vontade de descansar em seu abraço
No calor ardente dos seus beijos.


Ah, como é doce essa vontade que sinto, agora..
Vontade de querer, querer e querer você....


Socorro Carvalho

UMA FRASE

"A felicidade é um bem que se multiplica ao ser dividido."


(Marxwell Maltz)

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.



Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.



Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.



O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.



Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.



Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.



Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.



Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?



Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade

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