segunda-feira, abril 07, 2014

AMAR



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar... 



Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

CALMA AI, CORAÇÃO




"Coração surdo não tem juízo
Não ouve nunca a voz da razão
E razão você sabe, é preciso
Pra curar a sua loucura, coração"...

Zeca Baleiro


"AÍ NÃO, AMOR!"



No país do sexo anal, a vida pode ser difícil para as mulheres


 Um jornalista americano escreveu na revista Vanity Fair que a grande palavra da cultura alemã é “merda”. Segundo ele, os excrementos humanos e suas variações ocupam um lugar de destaque na língua e no pensamento alemães. Como eu não entendo mais que 12 palavras em alemão, não posso realmente julgar a afirmação, mas ela me fez pensar sobre qual seria a palavra mais reveladora, mais carregada de sentidos e mais frequente do português falado no Brasil - e aí não tenho dúvida que de que temos algo em comum com os alemães. Se eles se lambuzam com a palavra “merda”, nós, brasileiros, somos apaixonados pela palavra “cu”.


Ela aparece em todas as conversas e permeia todas as relações, invariavelmente de um jeito vulgar, mas que todos praticam. A gente diz que o Brasil é um cu, fala que fulano mora no cu do mundo, lembra que o cu não tem a ver com as calças. E esse é apenas o substantivo, o advérbio, o cu como sinônimo de coisa ruim. O outro uso da palavra, ainda mais revelador, é como metáfora da penetração. Se o cara fechou você no trânsito, você manda ele tomar... Porque dói. Se o chefe é injusto, obviamente está pondo ... Porque humilha. Quando você se deu mal, claro, levou ... Porque fere. E se alguém está passando dos limites, você pergunta: na bundinha não vai nada? Porque se trata de um abuso. Duvido que haja outro país em que a mesma palavra – e a metáfora da penetração – sejam usadas com tanta frequência e com tamanha intensidade emocional. Sobretudo na linguagem masculina. São os homens que mais põem e levam, o tempo inteiro.


Não precisa ser o Contardo Caligaris para perceber que este é um país de sodomitas, ao menos retoricamente. Os homens brasileiros são obcecados por sexo anal, e por isso o assunto transborda de forma tão exuberante na linguagem diária.  Os marmanjos pensam e falam insistentemente sobre o assunto, mesmo quando não praticam. O resultado dessa predileção real ou imaginária é que o tema invade a rotina das mulheres. Em boa parte dos lares brasileiros sexo anal é motivo de debate acirrado. Às vezes, é o grande impasse sexual do relacionamento. O homem quer, a mulher resiste. E a conversa continua.


Em privado, muitas mulheres reclamam dessa insistência masculina. Elas às vezes cedem, com grande desconforto, para que o sujeito não vá realizar a mesma fantasia com outra mulher. Sexo anal muitas vezes é um sacrifício, um gesto de amor que o parceiro nem sempre percebe como tal. As mulheres muitas vezes se embriagam para permitir que aconteça. Usam anestésico para reduzir as sensações ruins. Veem cursos na internet para aprender o jeito menos dolorido de se deixar penetrar. Isso tudo antes. Depois que acontece, elas reclamam de outras coisas. A primeira é a dor, presente durante e depois do sexo. A outra é que o parceiro, tendo vencido essa fronteira, acha que a passagem ficou livre. Em vez de diminuir, a concessão aumenta a pressão por dar o cu. Outra vez.


Mas essa é apenas parte da história. A outra envolve as mulheres que gostam de sexo anal. Há muitas delas, verdadeiras entusiastas. Por razões que podem ser psicológicas ou físicas – o reto tem mais terminações nervosas que a vagina – elas atingem orgasmos mais intensos ou têm sensações emocionais mais completas quando penetradas por trás. O ato envolve alguns cuidados do parceiro, geralmente implica em algum tipo de dor para elas, mas, ainda assim, ou por isso mesmo, elas curtem. Por fetiche, por doação, por anatomia – quem saberá?


Hoje em dia, com a difusão de um certo feminismo rasteiro, existe preconceito em relação a mulheres que gostam de sexo anal. Uma moça que eu conheço foi discutir as possíveis consequências da penetração anal com a sua ginecologista e ouviu um sermão. “Você não precisa se submeter a isso”, disse a médica. “Eu não me submeto. Eu gosto”, respondeu a moça. “Mas penetração anal machuca, não é para gostar”, retrucou a médica. A moça, que é boa de briga, mas já se sentia um pouco humilhada, encerrou a conversa sugerindo à médica que a anatomia “e a cabeça” delas eram diferentes. Talvez fosse o caso de mandar a médica moralista tomar naquele lugar.


No fundo tudo se resume a anatomia e cabeça.


Algumas mulheres não têm a anatomia necessária. Gostam de sexo, transam com desenvoltura e têm prazer em experimentar novidades. Mas, por mais que tentem, a penetração anal resulta para elas num ato triste e doloroso, que leva à beira do mal estar e não do êxtase. Nessas circunstâncias, o parceiro precisa abrir mão e entender que só há prazer quando dois estão curtindo. Mesmo porque, em alguns casos o problema anatômico é dele. Entre as vantagens de ser bem dotado não se inclui a de achar parceiras ansiosas para o sexo anal. Esse é um terreno em que os menores têm mais chance.


A questão dos sentimentos – o que passa pela cabeça das mulheres – é ainda mais complicada. No mar revolto e impenetrável de onde emerge o prazer não há respostas claras. Li há tempo sobre uma mulher que se excitava intensamente só de ouvir uma voz masculina que viesse por trás dela – esse era o preâmbulo suficiente para uma perfeita relação anal. Outras mulheres, igualmente saudáveis, não podem nem ouvir falar de dar o cu. A simples menção do ato lhes desperta repulsa e temor. Quem está certa e quem está errada? Ninguém.


Houve um tempo em que a dificuldade das mulheres em se deixar penetrar dessa forma era considerada um defeito. Fulana é ruim de cama, nem gosta de sexo anal, os homens diziam. Os mesmos homens que diante de um delicado dedo no seu ânus seriam capazes de reagir aos bofetões. Acho que esse tempo está acabando, porém. Continuamos, como uma grande nação emergente, obcecados pelo cu, mas aos poucos percebemos que isso pode ser apenas uma metáfora. Se a sua fêmea relutante não tiver medo de ser violada a cada noite, se ela souber que tudo vai ficar no terreno da fantasia, talvez ela aceite brincar e falar sobre o assunto. A imaginação não tem esfíncter e pode ser muito excitante. Por ela passam, sem dor, coisas que na vida carnal fariam chorar e desistir.


Ivan Martins
Revista Època

OLHA-ME... DE NOVO




“Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses
E era como se a água
 Desejasse”... 


Hilda Hilst

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