sexta-feira, outubro 28, 2011

DESENCANTO


Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos

É pena porque foi tão lindo amar
Sentir você sonhar tão junto a mim,
Ouvir tanta promessa,
Fazer tanta esperança,
Pra hoje ver lembrança, tudo enfim

Nâo passou
De um triste desencanto, amor,
E desde então eu canto a dor
Que eu não soube chorar

Chico Buarque 



AMAR COM GOSTO


Quando o amar se faz gosto,
O cenário não importa, vale amar e ser amado...
Entrega-se sob a chuva ou sob o chuveiro,
envoltos em cinzas ou sob os lençóis.
Deseja-se sobre a grama, sob a lama, entre chamas,
num incandescente abandono.
Se ama em meio as folhas de outono
ou sobre um manto de girassóis.
Quando o amar se faz com gozo,
o gozar se dá gostoso.



Fonte: Blog Sete Pecados - Luxúria

SENSAÇÃO DE DESLOCAMENTO SOCIAL


A carta fora do baralho. O estranho no ninho. Alguém sobrando. Quem é que nunca ouviu falar de nenhuma dessas e outras expressões que servem para representar a sensação de deslocamento social? Na minha opinião, todo mundo. Muita gente pode até discordar dessa afirmação por achar que estou generalizando, mas acho difícil acreditar que não exista ninguém nessa vida que não tenha se sentido deslocado em algum ambiente ou situação especifica. É fato: nem sempre dá pra se sentir à vontade em todos os lugares e a todo o momento. Às vezes você não tem todas as ferramentas certas para a interação dar certo e não sabe como se sentir menos desconfortável. Em outras vezes, é apenas o seu jeito de ser mesmo.

Ah, o jeito de ser, essa coisa tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexa de se entender, principalmente para quem adora/ama de paixão tirar conclusões de forma precipitada. Um exemplo que simplesmente fortalece isso é quando você está com outras pessoas e todos estão agindo de um modo muito parecido. De repente, os ``holofotes`` se acendem e viram-se pra você se tornar o foco da discórdia. ``Como é que pode você não tomar café a tarde?``, ``Porque está usando a mão esquerda se você é destro?``, ``Nossa, você é o único que não está bebendo cerveja. Bah, que careta``. Esses são apenas alguns poucos exemplos dentre inúmeros. Eu sei que cada um também deve ter os seus, afinal tomar uma atitude diferente não é uma exclusividade minha ou sua, por incrível que pareça. Aliás, são justamente esses tipos de atitude que levam uma pessoa deslocada a ganhar a alcunha de chata e ser alvo de piadinhas que, em sua grande maioria, não são nem um pouco engraçadas.

No entanto, sentir-se deslocado vai muito além de tomar uma atitude diferente e perfeitamente natural, condizente com sua realidade. Isso também tem a ver com a timidez. E ser tímido não é necessariamente ruim. É algo que tem suas qualidades. Para alguns, é como uma característica admirável por trazer consigo a reflexão e a habilidade de saber ouvir. Mas também tem o lado ruim como quando você deve ir a uma confraternização e interagir com pessoas diferentes sem saber como ou então quando você vai a um lugar pela primeira vez e vivencia experiências inéditas ao lado de pessoas com mais experiência que você nesse tipo de ambiente. O que fazer quando não há roteiro? Como jogar quando não se sabe as regras e ninguém se dá o trabalho de explicar? E a última (e melhor) pergunta: você está preparado para TODO tipo de surpresa???

É obvio que é muito mais fácil interagir quando existe alguma afinidade. Pode ser qualquer coisa, desde que seja boa o bastante para garantir uma conversa descontraída. Afinal de contas, ninguém nesse mundo sente prazer real em ficar apenas ouvindo sobre coisas chatas ou assuntos que não sejam tão interessantes no momento. Em outras palavras, interagir é como uma obra de mágico, cheia de surpresas e com detalhes que vez ou outra passam desapercebidos. Você nunca sabe exatamente o que pode acontecer. Inclusive, em alguns casos bem raros pode existir alguém que tenha a percepção de ver que uma pessoa não está se sentindo bem à vontade e assim resolver traze-la para o meio da conversa. Isso pode ser feito de várias maneiras, seja fazendo alguma brincadeira que te deixe inicialmente sem graça ou apenas te chamando para algo que seja do seu interesse.

Bom, nem tudo é perfeito. Às vezes você tem que se jogar numa situação de olhos fechados e ver no que vai dar. O risco existe e é real assim como as possibilidades de acertos numa situação nova. O que sobra depois disso é o aprendizado, talvez a melhor compensação para quem já se sentiu deslocado.




AMAR:


Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
 O amor é quando a gente mora um no outro".

(Autor: Mário Quintana)



“DEGRADAÇÃO AVANÇA NA SERRA DO ÍNDIO: RISCOS A POPULAÇÃO E À NATUREZA”

Serra do Índio devastada. Ao fundo, a cidade que a devastador
 por Leíria Rodrigues (*)




“As mulheres vinham lavar roupa e pegar água daqui da fonte para beber. Era aqui que eu trazia meus filhos para brincar…era o nosso lazer olhar a cidade pela Serra…”. Assim foi a lembrança saudosa de Antônio Domingos, o “Tonhão”, do bairro do Santarezinho, onde está localizada a “Serra do Índio”, em Santarém. Morador há 26 anos no bairro, foi crescendo subindo a serra e vendo aos poucos ela desaparecer.


Numa conversa saudosa e de lamentos, subimos parte da serra, olhando com cuidado os detalhes da degradação, até para assegurar que nenhum acidente nos ocorresse, em virtude das crateras que encontrávamos no percurso. Algumas paradas, para relembrar algum fato que hoje é impossível reviver, pelos rastros da destruição e do abandono. Erosões recentes provocaram crateras com mais de 2 metros de profundidade.

Segundo Tonhão, a Serra começou a sofrer ainda na década de 70, com a retirada de parte do pico para que aviões pudessem sobrevoar com segurança. “Eles metiam máquinas e iam acabando com tudo”. Não só brincou na serra, quando menino, como ajudou a preservar a área quando adulto, na associação de moradores do bairro, como liderança comunitária: “por várias vezes encaminhamos documentos para a prefeitura, mostrando a situação e pedindo ajuda. A maior parte das autoridades não conhecem a Serra”, lamentou o comunitário.

Fluxo de carros

As erosões também foram aumentando com a retirada desordenada da areia, para uso da construção civil. “Carradas e mais carradas de areia saiam daqui desta serra. O viaduto, a orla de Santarém, tem essa areia. Na época, tive que mudar de rua, porque o barulho e o fluxo de carros era muito grande, e tinha medo dos meus filhos que ficavam brincando na rua de casa”.


Outrora imponente, a Serra do Índio fica menor a cada ano



O desabafo de Tonhão ecoava no alto da serra, onde conseguimos chegar. De lá, víamos grande parte do bairro, que ainda cresce desordenado ao pé da serra. E com cuidado e ajuda de um outro morador, paramos para contemplar a paisagem natural que ainda se avista no entorno da serra. A vegetação nativa quase não existe e o lixo doméstico toma conta ao redor.
Dona Paula Almeida, que mora numa área de ocupação do bairro, bem no pé da serra, lamentou a situação do lixo. Disse que ela e o marido catam garrafas pet’s e não deixam ninguém de perto jogar lixo, mas “as pessoas tocam fogo e queimam lixo”. Dona Paula mostrou uma grande área de vegetação que foi queimada pelo fogo. Disse ainda, que a coleta do lixo é feita por uma carroça, pois o carro da empresa que faz o serviço público, não passa por lá, devido à dificuldade de acesso.

Explosão

Em pleno céu aberto, ao pé da serra, encontramos vários buracos feitos para despejos de resíduos, como coliformes fecais, em antigas “privadas”. Além dos riscos de desmoronamentos, a falta de saneamento preocupa as famílias que vivem no entorno. Tonhão disse que ouve constantemente, estrondos pela madrugada: “em noites de chuvas fortes, a gente ouve tipo uma explosão, devem ser as rochas, barrancos de areia caindo. A gente tem medo, mas não tem pra onde ir.”
Outro impacto ambiental negativo é o assoreamento dos igarapés que cortam a área, como os igarapés do Irurá e Mapiri. Em recente reportagem, o jornalista santareno Manoel Cardoso, revelou dados técnicos de um levantamento da empresa R. Branco Engenharia, que “tanto o Lago do Mapiri quanto o igarapé do Irurá também tem sido prejudicado pela descida de areia da Serra do Índio, onde foi retirada a ponta superior da serra a fim de reduzir a altura da montanha, para facilitar o pouso de aeronaves no antigo aeroporto da cidade.

A retirada de parte da Serra, segundo a empresa de engenharia, causou um dano ambiental sério, por conta dos idealizadores da obra não terem previstos o desastre do assoreamento do Irurá com a descida das terras durante a chuva. De acordo com a R. Branco Engenharia, matando o igarapé do Irurá irá acabar com a biodiversidade e transformar a área em um deserto.

A empresa R. Branco é a favor da retirada total da Serra do Índio, por acreditar o impacto ambiental seria menor, principalmente pela Serra ter perdido a proteção natural, ocasionando na descida de areia, a qual está assoreando o igarapé e toda região. Para a R. Branco Engenharia, a proibição da retirada da Serra do Índio é incoerente e, que o projeto de remoção total seria a alternativa para iniciar o reflorestamento da área, além da construção de uma escola florestal, um bosque ou outra área verde para Santarém”.

Recompostas

O Engenheiro Ambiental Podalyro Neto, também acredita que não há como reverter, uma vez que a área está seriamente impactada. “Nesse caso, não existe um mecanismo que possa oferecer um período de vida útil a Serra. Diferentemente de uma área que precise ser reflorestada. Áreas arenosas, dificilmente nascem de novo ou são recompostas”.



Dentro desse contexto, existem várias técnicas que oferecem a retirada da serra, com baixos impactos negativos. Podalyro só alerta para que de fato isso aconteça, dentro de um projeto de urbanização da área. “A população precisa ser envolvida e acompanhar o processo de revitalização da área em outros cenários e que se tenha um destino adequado ao material, no caso a areia. Até porque é uma Área de Proteção Permanente”.



Um dos maiores impactos é também o paisagístico, a degradação avassaladora na Serra do Ìndio tem provocado uma mudança radical no cenário, que segundo o geólogo e auditor ambiental Miguel Campos, o espaço deve ter sido originado há pelo menos 7 milhões de anos antes do homem. Constituída de um material areno argiloso, que tem sua origem na Vila de Alter do Chão. Por ser encontrado com facilidade na região é o mais usado no setor da construção civil.
Um cenário constituído pela urbanização desorientada e a retirada desordenada de recursos naturais contribuíram para a emergência dos impactos ambientais como desmatamento, destruição das áreas de preservação permanente, intensificação dos processos erosivos e contaminação generalizada dos recursos hídricos, problemas que se relacionam com localização, distância, topografia, características geológicas e geomorfológicas, crescimento populacional, especulações imobiliárias, formas de apropriação do espaço e segregação sócio-espacial, salientou o geólogo.

Milhões de anos

“Agora a saída é criar um Plano de Recuperação de Área Degradada e mitigar os impactos como a poluição sonora e do ar. Não há como salvar a Serra do Índio sem uma medida de zoneamento que destine a retirada do material arenoso e, uma destinação adequada. Da parte plana, que ficar, recuperar”, disse Campos.
A Serra do Índio, que levou milhões de anos para se erguer, pode levar pouquíssimo tempo para deixar de existir. Assim como Tonhão, Dona Paula, outros moradores olham a Serra como num adeus. Tonhão chegou a baixar a cabeça e suspirou forte, quando perguntei como seria olhar para frente e não ver mais a serra. “Se retirar é o melhor para a Serra…A cada morro que desce é como se fosse a morte chegando devagar”, disse o antigo morador num tom de desalento.
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* Santarena, é pós-graduanda em Jornalismo Científico/UFOPA. Essa reportagem é parte da ação do curso de Pós Graduação em Jornalismo Cientifico da UFOPA, da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, no período de 17 a 23 de Outubro de 2011, com o tema “Mudanças Climáticas, Desastres Naturais e Prevenção de Riscos”. O título original da reportagem é “Degradação avança na Serra do Índio:  Riscos a população e à Natureza”.

Publicado no  Blog do Jeso

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