segunda-feira, julho 18, 2011

ENTREVISTA: JORGE STREIT PARA O JORNAL LÓTUS BEM ESTAR

Jorge Streit -Presidente da Fundação Banco do Brasil
O capital humano e social tomam cada vez mais espaço no debate sobre crescimento econômico. Isso quer dizer que existem hoje muitas instituições que veem os benefícios econômicos de se investir nas redes que promovem reciprocidade e cooperação, resultando em maiores níveis de participação social e bem-estar coletivo. Por isso, grandes empresas e organizações têm instituído como um de seus eixos estratégicos a promoção das Tecnologias Sociais para a melhoria da saúde, habitação, saneamento, educação, ou até mesmo do nível de felicidade, elementos que antes eram responsabilidade apenas de Estado, ou nem eram vistas como uma de suas funções.
Para dar apoio a essas iniciativas do Bem, o Lótus inaugura, a partir deste mês, uma coluna para divulgar projetos em Tecnologia Social a fim de dar visibilidade a essa grande corrente de ações inspiradoras que têm repercutido na vida de tantas comunidades.
Nesse contexto se insere a Fundação Banco do Brasil (FBB), que neste ano promove a 6ª edição do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. São R$ 80 mil para cada projeto. Em apenas meia hora de conversa com o presidente da instituição, Jorge Streit, conhecemos dezenas de programas que têm sido desenvolvidos e reaplicados há anos para beneficiar milhares de famílias. O público: pequenos agricultores, catadores de lixo, professores de pequenas escolas, adultos que querem aprender a ler e escrever, artesões e pessoas comuns sem perspectiva de inserção social.
Lótus: O que são as Tecnologias Sociais?
Jorge: O conceitocompreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social. É importante que não seja apenas algo da cabeça de um pesquisador ou desenvolvedor, mas que esteja em interação com a comunidade e que represente uma efetiva transformação na vida daquela pessoa sob diversos aspectos, como habitação, saneamento, saúde, educação, geração de renda... e que possa ser reaplicada em outros lugares, que não seja algo que só vale para um determinado espaço e condição, mas que possa ser levado a outros.
Lótus: Pode dar um exemplo que tenha sido emblemático?
Jorge: O PAIS por exemplo, Produção Agroecológica Integrada Sustentável, é uma Tecnologia Social -  aquela horta redonda que tem um sistema agroecológico num formato de mandala. Isso foi muito reaplicado. Devemos ter feito umas 7 mil só com nossos recursos e outros que a gente captou. É uma verdadeira revolução na área rural, porque introduz uma série de elementos que eram totalmente desconhecidos para as pessoas. Havia famílias que, antes de ser introduzido o PAIS, costumavam consumir 3 ou 4 tipos de alimentos apenas, e com o programa, a família passa a consumir 13, 17 tipos de alimentos. Ela passa a ter oferta ali, perto da casa dela. Como tem uma caixa d’água para viabilizar o sistema de irrigação, que é por gotejamento, isso já permite à família ter um banheiro em casa, ou seja, é outro ganho, porque ela às vezes não tinha condição nem de ter um banheiro, pela dificuldade de ter uma bomba, uma caixa d’água. Além disso, você traz agricultores familiares de sistemas tradicionais para um cultivo orgânico, agroecológico.
Esse programa acaba sendo uma resposta também ao problema da segurança alimentar, impacta nas questões de saúde, por causa do banheiro, do acesso à água, e acaba gerando fonte de renda porque produz excedente, e a família começa a ampliar a horta. Ao introduzir isso, muitas outras discussões também são colocadas porque você recicla os produtos de dentro da propriedade, você passa a não depender de insumo químico, o que é bom tanto pelo lado da sustentabilidade ambiental, quanto pelo lado econômico. Você sai da relação de tirar grande parte do seu ganho e entregar para os donos das lojas de insumo químico...há uma série de ganhos...entram também conceitos de permacultura, com o uso de plantas que podem ajudar a controlar determinados tipos de pragas. Acaba tendo um trabalho de educação junto a isso.
Lótus: Como os projetos são escolhidos e premiados pela Fundação?
Jorge: O Prêmio é concedido a cada dois anos e tem o objetivo de identificar, certificar, premiar e difundir Tecnologias Sociais já aplicadas, implementadas em âmbito local, regional ou nacional e que sejam efetivas na solução de questões relativas à alimentação, educação, energia, habitação, meio ambiente, recursos hídricos, renda e saúde. Podem participar instituições sem fins lucrativos, de direito público ou privado. São 3 etapas: certificação, em que são avaliados quais projetos inscritos podem ser certificados. Os selecionados são inseridos no Banco de Tecnologias Sociais, recebem um Certificado de Tecnologia Social e passam, automaticamente, a concorrer à etapa de Seleção das Finalistas do Prêmio. Na etapa de Seleção das Finalistas, as Tecnologias Sociais certificadas são pontuadas segundo os critérios de efetividade, nível de sistematização da tecnologia e resultados qualitativos e quantitativos. São declaradas finalistas as 3 tecnologias, por categoria, que obtiverem as médias mais elevadas. Passa-se à terceira etapa, que é o Julgamento das Vencedoras, em que as finalistas são pontuadas pela inovação, nível de envolvimento da comunidade, transformação social e potencial de reaplicabilidade. A tecnologia com maior pontuação média, em cada categoria, será declarada vencedora. Cada uma das 9 instituições responsáveis pelas Tecnologias Sociais vencedoras receberá um prêmio de R$ 80 mil para ser utilizado em atividades de aperfeiçoamento ou reaplicação da iniciativa. Este ano as categorias foram divididas em "Direitos da Criança e do Adolescente e Protagonismo Juvenil"; "Gestão de Recursos Hídricos"; "Participação das Mulheres na Gestão de Tecnologias Sociais"; e uma nova categoria: "Tecnologia Social na Construção de Políticas Públicas para a Erradicação da Pobreza".
Lótus: Quantos projetos se inscrevem a cada ano?
Jorge: A cada edição do prêmio, nós temos uma média de setecentas inscrições. No processo de crivo, acaba ficando no Banco de Tecnologias Sociais efetivamente ¼ disso mais ou menos, cerca de 200 ficam catalogadas e passam a fazer parte da final. Muitas ideias são meritórias, mas não atendem a todas as características de uma Tecnologia Social. Então não é qualquer projeto que é premiado. Tem toda uma verificação para saber se a tecnologia está sendo implantada de verdade, ou se é só uma ideia que está na cabeça das pessoas, se está produzindo algum resultado, se corresponde ao que é na prática. Esse é um processo que diferencia o nosso prêmio de outros, porque temos uma grande capilaridade no Brasil, temos mais de 5 mil pontos do Banco do Brasil, onde as pessoas se inscrevem. Quando uma pessoa inscreveu uma Tecnologia Social de uma pequena cidade do interior do Pará, ali tem uma agência do BB, em que um funcionário vai verificar e fazer um relatório para nós. Esse ano, como todos os anos ímpares desde 2001, nós temos um esforço maior de divulgação, porque o Prêmio para nós é uma espécie de ponto alto. É um momento importante porque trazemos para reconhecimento pessoas que trabalham anonimamente com isso durante anos.
Lótus: Depois da premiação, como é acompanhada a reaplicação dessas Tecnologias Sociais?
Jorge: A cada ano que passa, nós verificamos quais daquelas Tecnologias têm condições ou atratividade para virar algo a ser reaplicado, porque às vezes a Tecnologia é muito bonita, mas quando buscamos apoio para reaplicar, ela não desperta grande interesse. Mas anualmente a gente tem identificado uma. Por exemplo, teve um ano em que reaplicamos muito pelo Nordeste as mini-fábricas de castanha de caju, que são uma forma de dar mais qualidade à castanha, para gerar uma receita maior para os agricultores, e fazer com que consigam acessar alguns mercados. Desde 2001, a Embrapa cadastrou muitas dessas mini-fábricas, e de lá para cá, nós fizemos mais de 40 delas nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia. Em outro ano eles cadastraram outra Tecnologia, as fossas sépticas biodigestoras, que servem para a família rural tratar os dejetos humanos. Nós já fizemos talvez umas três mil unidades dessas com recursos, parte nossos, parte de alguns parceiros, principalmente o BNDES que tem entrado com recursos do fundo social do BNDES.
Em outro momento, identificamos as “Barraginhas”, que é uma Tecnologia Social para deter água de enxurradas e umidificar terrenos, solos que já estavam praticamente perdidos para atividades produtivas. Recentemente identificamos uma Tecnologia para agregar qualidade à produção leiteira, que é o “Balde Cheio”. Outra é a ILPF, a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, uma resposta a essas áreas em que houve muita degradação ambiental. É uma forma de replantar floresta, conciliando com atividade produtiva. Estamos tentando difundir um pouco essa tecnologia. Ultimamente, como várias instituições parceiras da fundação deram ênfase à questão de geração de renda e combate à fome, então essas Tecnologias acabaram tendo bem mais atratividade para reaplicação. Estávamos com quase seiscentas Tecnologias cadastradas e agora resolvemos fazer o que chamamos de uma revisitação. Contratamos uma instituição que trabalha muito com políticas públicas - o Instituto Pólis - que está revisando todo o Banco de Tecnologias Sociais. Está indo de projeto em projeto para ver se a Tecnologia continua sendo implementada, se a instituição continua à frente daquele trabalho ou não, ou se interrompeu por alguma razão, se a Tecnologia foi apropriada por alguma política pública nesse período.
Lótus: Vocês têm trabalhado para que os projetos se tornem políticas públicas?
Jorge: É uma meta nossa de que as Tecnologias Sociais virem políticas públicas, porque elas saem do pequeno nicho e viram algo de escala. Ganha porte. Essa revisitação está sendo feita, e com isso algumas das Tecnologias devem sair do Banco de Tecnologias Sociais, a gente deve perder uns 15 ou 20% do que está lá, porque algumas delas já não deve mais estar em funcionamento. A boa notícia é que muitas delas viraram políticas públicas nesse meio tempo. A gente tem vários projetos apresentados em determinado momento atrás que hoje um município no interior de SP resolver fazer daquilo uma política, seja replantio de árvores em área de matas ciliares, seja cuidar de nascentes, ou na área de saúde, ou alguma ideia para habitação que o município adotou para a secretaria municipal de habitação, quer dizer, várias das experiências tiveram esse destino. Isso é bem gratificante para nós. Agora mesmo, não apenas nós da Fundação, mas a Rede de Tecnologias Sociais, que nós ajudamos a criar, estamos há uns dois ou três anos indo aos Ministérios de Desenvolvimento Social, de Ciência e Tecnologia, tentando que eles participem num papel indutivo junto aos estados e municípios, trabalhando com os gestores públicos para fazer desses projetos políticas públicas.
Lótus: A Fundação tem se unido a agendas governamentais, como por exemplo, o combate à fome e à miséria?
Jorge: Em 2003, quando o governo lançou o Fome Zero, nós fizemos uma revisão na nossa estratégia e puxamos para públicos prioritários aqueles que o governo estava identificando como públicos sob maior exclusão. Trouxemos catadores de materiais recicláveis para o centro de nossa estratégia, os quilombolas, os assentados da reforma agrária, pinçamos aqueles públicos cujos indicadores apontavam que estavam em grau de exclusão maior dentro da sociedade, colocamos como públicos prioritários, e também fizemos isso com as regiões. Trouxemos o semi-árido nordestino para ser o centro da nossa atuação e fomos construir grandes projetos lá. Construímos um projeto com mandiocultores na região de Vitória da Conquista na Bahia, com apicultores na região de Picos no Piauí, grandes projetos, com dois, três mil agricultores familiares, projetos com caju, com mais de quarenta cooperativas pelo Nordeste todo. Neste momento, procuramos recolocar essa questão da seguinte forma - a pobreza não pode ser vista como ausência de renda simplesmente, mas deve ser vista como um conjunto de carências bem maior, de educação, saneamento, de saúde, bem-estar social, de um conjunto de fatores que vão muito além do fator renda. Então para cada uma dessas áreas temos Tecnologias Sociais para aplicar ou reaplicar. E estamos trabalhando isso agora - alinhar nossa atuação. Por exemplo, nós temos aqui o “BB Educar”, que é o grande programa de alfabetização de adultos. Desde o início desse programa nós já alfabetizamos 350 mil pessoas no Brasil e uma das grandes questões que o governo quer atacar em relação à pobreza é o combate ao analfabetismo. Estamos atuando também no campo da exclusão digital que é outra forma de responder à pobreza.
Lótus: Além da atuação com as Tecnologias Sociais e a premiação, que outras atividades no âmbito social estão sendo desenvolvidas pela Fundação?
Jorge: Temos um grande programa com cinqüenta e duas mil crianças atendidas - o AABB Comunidade (Associação Atlética Banco do Brasil). Esse programa recebe crianças carentes no contraturno escolar. Fora do turno escolar, elas vão para as sedes das AABBs e ali tem educadores que são preparados e pagos pela Fundação para atendê-las. Ali elas têm uma série de atividades desportivas e culturais. Temos outro programa com catadores de materiais recicláveis. Há vários anos, nós apoiamos por volta de 150 cooperativas e associações de catadores em todo o Brasil. Com o apoio de parceiros estamos também com outros projetos, como o “Cataforte”, que busca a capacitação de catadores de material reciclável pelo Brasil. Foram 12 mil catadores que ficaram um ano e meio em treinamento e sendo assessorados tecnicamente. Nós colocamos assessorias nas cooperativas para treinar, tanto nos processos produtivos, como nas questões de cidadania, acesso a documentação e uma série de elementos que compõem esse trabalho. Agora estamos com outro projeto com a “Logística Solidária”. Estamos colocando 180 caminhões para ajudar na logística dessas cooperativas. Não só caminhões, há capacitação e logística para quem vai dirigir esses caminhões, para quem vai organizar a rota de coleta nas cidades. Não é um trabalho só de viabilização econômica, mas também agrega mais dignidade ao trabalho deles, tirando dos lixões, tirando desse trabalho de revirar lixo nas lixeiras, colocando-os em cooperativas, tecnificando o trabalho.


Fonte: Site FBB

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