SÓ UMA LEMBRANCINHA


Tempos difíceis, reclamava Osório.

Tempo em que pra arrumar um empreguinho mais ou menos era preciso travar uma batalha homérica, entre currículos, rezas e mandingas. Foram mil e quinhentos candidatos pra disputar apenas uma vaga. Mesmo assim, depois de cinco anos e meio fazendo trabalhinhos esporádicos pra ganhar a vida. Osório conseguiu. A vaga era dele.

Nem acreditava, parecia coisa de Papai Noel. Salário fixo, férias, benefícios e tudo mais que tinha direito. A felicidade era tanta que nem pensou duas vezes e já entrou num financiamento de um carro. Um Gol, branco, daqueles bolinha. Sempre quis ter um Gol bolinha. Agora sabia que podia arcar com as prestações, sem medo.

Entrou na empresa no início de dezembro, ainda estava naquela fase de adaptação, conhecer o pessoal... essas coisas. Logo na segunda semana já anunciaram que o tradicional "amigo oculto" que acontecia todo fim de ano, seria nos próximos dias. Osório nunca gostou muito dessa brincadeira, até porque era um predestinado a sair em desvantagem. Desde moleque sempre dava um presente melhor do que aquele que recebia. Comprava um jogo de tabuleiro e recebia uma lapiseira, dava uma camisa de marca e ganhava um porta retrato. Desenvolveu até um certo trauma pela coisa. Só topou participar por causa da mulher, que disse que pareceria anti-social, um novato não participar da festa da empresa. Mesmo assim decidiu que desta vez não levaria desvantagem. Desta vez seria diferente.

— Olhalá, olhalá... lá vem outro. Viu só o tamanho daquilo?

— Daquilo o quê, Neide?

— Do presente, oras bolas. Olha o tamanho do pacote que o cara fez. Ai, que vergonha, que vergonha...

— Vergonha do quê, mulher?? Tá doida?

— Osório, homem de Deus. Olhalá, tá todo mundo com cada pacote que mal dá pra carregar no braço. Tem embalagem aí que dá pra comprar uns cinco presentes igual esse seu. O seu presente é o único que dá pra trazer dentro do bolso. Imagine a vergonha que a gente não vai passar...todo mundo dando presentão... e você com essa merrequinha.

— Merrequinha... Essa é boa. Foram eles mesmo que falaram "é só uma lembrancinha", então, comprei uma lembrancinha e pronto.

— Eu sei, Osório, mas também não pode ser qualquer coisa, né? Por exemplo... ali. Tá vendo aquela moça?

— Sei, a Gerente de Vendas. Que que tem?

— Pois então, você acha que uma mulher com AQUELE par de brincos, usando AQUELE colar, em cima de um salto DAQUELA altura... vai ficar contando moedinhas pra comprar presente de amigo secreto?? Olha o nível desse povo.

— Azar o dela. Pra mim lembrancinha é lembrancinha e pronto. Tivesse fixado um valor, então. Oras bolas.

— Céus, quanta ignorância... Mas não fixam justamente por isso. Pra ver a consideração que cada um tem pelo seu amigo. Dando um presente bom, quer dizer que você acha a pessoa especial, agradável... que merece um presente bonitinho. Entende? Do contrário quer dizer que aquela pessoa não significa nada mais do que algumas moedinhas.

— Um chaveirinho do Corinthians.

— Como?

— Meu amigo secreto vale um chaveirinho do Corinthians.

— MEU DEUS! Diz que é mentira!!!! Você NÃO COMPROU um chaveirinho ridículo pra dar de presente. HEIM?? FALA A VERDADE!!!

— Comprei sim, e daí? Vai que eu vou lá e compro um super presentão e EU é que recebo um chaveiro. Como é que fica???? HEIM??!! Pelo menos se eu ganhar um chaveiro a gente termina empatado.

— Ai, Osório. Você me mata de vergonha!

— Bah! Quer saber de uma coisa? Eu é que não vou ficar esquentando a cabeça. Eu vou é dar essa droga de chaveiro, mesmo e pronto. Não quero nem saber. Se aceitar beleza, senão foda-se.

— E quem é o "sortudo" que vai ganhar esse "presentão"?

— Nem sei direito. Não conheço o nome de todo mundo. É um tal de Aníbal Shigav, Shicut... algo desse tipo...

— Jesus, e como é que você vai entregar o presente pro seu amigo se nem sequer sabe quem ele é?

— Ah, chega lá eu falo "meu amigo é o Aníbal" e pronto. Duvido que tenha dois Aníbals trabalhando no mesmo lugar.

A conversa é interrompida pelos gritos de uma mulher que, em cima de uma cadeira, convoca os presentes para começarem a revelação.

— GEEEEENTE!!! GEEEENTE!!! VAMOS REVELAR O AMIGO SECREEEETO!! VEM LOOOOOGO, GEEEENTE!!

As pessoas foram se reunindo entre brincadeiras e sorrisinhos, alguns arriscavam tentar adivinhar quem o colega tinha tirado, outros ficavam comparando o tamanho dos pacotes. Depois de uns 5 minutos formou-se um grande círculo reunindo todos os participantes.

— GEEEENTE. SILÊÊÊÊNCIO, VAMOS COMEÇAR! SILÊÊÊÊÊNCIO!

O barulho foi diminuindo aos poucos, até que todos ficaram em silêncio. Novamente a mulher toma o comando.

— Olha, pra não ficar aquela bagunça de "quem começa? quem começa?", vamos fazer igual ao ano passado. Afinal, nada mais justo do que deixar o início da brincadeira para o Presidente da Empresa. Não é mesmo? Então, Vamos lá. Senhor ANÍBAL SHINASKI, pode vir pro meio.

Todos aplaudiram e gritavam, menos Osório. O nome não deixava dúvidas, Neide foi quem se manifestou primeiro.

— Osório, será que esse é o seu...

— É, parece que é!

— Ai, que vergonha, que vergonha...

Um frio correu pela espinha de Osório. Pela primeira vez começou a dar razão à esposa, deveria ter comprado um presente mais bonitinho.

Logo em seguida, o senhor Shinaski deu início à revelação.

— Bom, como vocês sabem eu não sou de falar muito, então não vou ficar enrolando. Fiquei muito feliz em ter tirado essa pessoa como amigo secreto, principalmente porque ela é nova na casa, então me sinto honrado em ter a oportunidade de dar as boas vindas e desejar um futuro brilhante dentro da nossa empresa. É com muita satisfação que revelo meu amigo secreto, o senhor OSÓRIO DA SILVA.

Se antes o frio passou pela espinha, agora ele percorreu o corpo todo. Osório engoliu seco. Por essa ele não esperava. Ter que dar um chaveiro para o homem que tinha acabado de lhe contratar. O Presidente da Empresa. Pela primeira vez na vida torceu pra ganhar um presente chinfrim de amigo secreto. Mesmo sabendo que mais chinfrim que o seu, era praticamente impossível. Levantou bem lentamente, parecia que tinha chumbo nas pernas. Ainda no meio do caminho olhou pra trás e viu Neide, com as duas mãos tapando o rosto. Chegou até o senhor Aníbal, exibiu um sorrisinho amarelo, deu-lhe um abraço e pegou o presente de suas mãos. Todos começaram "ABRE! ABRE! ABRE! ". Osório torceu pra sair alguma brincadeira besta do pacote e no final o presente ser uma cueca, um par de meias ou coisa do tipo. Abriu. Era um belo par de sapatos. Coisa fina, couro legítimo. Provavelmente era importado. Todos soltaram um "Óóóóóóhh" com olhos cheios de admiração e inveja. Osório deu uma olhadinha para o lugar aonde Neide estava sentada, mas não tinha mais ninguém lá. Agradeceu ao senhor Aníbal fazendo um gesto com a cabeça, ainda exibindo o sorrisinho amarelo. Agora era a sua vez, teria que dar seqüência à brincadeira. Já sabia o que estava por vir. Um pensamento otimista lhe veio à mente. Tudo poderia parecer muito engraçado, uma grande piada, e terminar com todos rindo do presentinho ridículo que Osório tinha comprado. Mas logo a realidade vinha à tona. Puxa vida, o cara tinha dado um sapato caríssimo e iria receber um chaveirinho em troca. Quem vai rir de uma coisa dessas???

— Errrrr....meu amigo sec...creto.... errr... gosto muito e... cof cof...ele é...errr ...o senhor ANÍBAL.

Novamente todos aplaudiram, alguns gritavam "É MARMELADA! É MARMELADA!" não acreditando em tamanha coincidência. O senhor Aníbal chegou perto, deu um abraço em Osório e recebeu de suas mãos uma caixinha embrulhada num papel barato. Novamente todo mundo começou "ABRE!ABRE". Na cabeça de Osório o coro "NÃO ABRE! NÃO ABRE!". Chegou até a pensar em algum milagre, vai que o homem abre a caixinha e encontra um relógio de ouro no lugar do chaveirinho. Fechou os olhos e fez um pensamento positivo. O senhor Aníbal finalmente abriu a caixinha mas, ao que parece, o pensamento de Osório não foi tão positivo assim.

O silêncio tomou conta do lugar, ninguém acreditava no que estavam vendo. A única coisa que se conseguia ouvir era um som baixinho de choro, lá no fundo do salão. Era Neide, que acompanhava tudo de longe. Se existia algum tipo de respeito do senhor Aníbal para com Osório, tinha terminado ali. Dava pra ver nos olhos do homem, que segurava seu presente entre o polegar e o indicador. Uma mistura de decepção e raiva. Então era isso que ele significava para o Osório? Um chaveirinho do corinthians?! Ainda mais ele, que era palmeirense roxo. O valor já nem era tão importante. A coisa ficou parecendo um grande deboche, uma desafronta.


E pensar que Osório ainda estava cumprindo período de experiência dentro da empresa. Mil e quinhentas pessoas prontas pra tomar o seu lugar, só esperando um pequeno vacilo. E não havia dúvidas que aquela situação ERA um vacilo. Precisava pensar em algo, rápido. Seu futuro estava em jogo.


Senhor Aníbal dirigiu o olhar para Osório. O olhar dele não mentia, era como se tivesse escrito na testa, em letras garrafais "O que significa esse maldito chaveiro?" Ficou um tempo encarando Osório, esperando uma explicação. Osório sabia que em questão de segundos, caso não se manifestasse, o homem tomaria a iniciativa e começaria a falar. Se isso acontecesse, seria o fim. Foi quando colocou a mão no bolso, estava ali, sua salvação, bem firme entre os seus dedos.


— TCHÃRÃÃÃÃMM!!!!!!



Pronto, caso encerrado. Muita gente ficou confusa, mas ninguém poderia condená-lo. Depois de tanto tempo ainda se pergunta se fez a coisa certa. No fundo acredita que sim, afinal, já são cinco anos dentro da mesma empresa. No meio de conversas miúdas ficou sabendo que logo na primeira semana após a festa, o senhor Aníbal se desfez do chaveirinho do corinthians. Já o Gol bolinha, não. O Gol bolinha é seu companheiro inseparável nas visitas que faz à chácara nos finais de semana.

Orlandeli




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