domingo, junho 30, 2013

AMORES ÍMPIOS



“Por favor, reprime as chamas desse amor ímpio”. A frase é de Sêneca, o filósofo. O que seria um amor ímpio? Pela definição de um honesto dicionário, ímpio é tudo que ofende a moral, a justiça, a religião, o estado das coisas. Parêntese.



A linguagem separa o ser humano da natureza. Quando conhecemos a linguagem, deixamos de dar vazão aos instintos porque passamos a ser mediados por valores e conceitos que aprendemos junto com a sintaxe e a morfologia da língua. São valores morais, éticos, religiosos, jurídicos e outros que servem para nos regular as práticas e os comportamentos. Mas os desejos regulados não somem. Os desejos proibidos são reprimidos e jogados no gavetão do inconsciente, onde ficam fervendo, esperando uma chance de se realizar. São pulsões. Pulsam, falando a seu modo em nossa vida. Querem o que queremos e os outros não deixam. Algumas viram amores platônicos e o que se ganha e o que se perde ninguém precisa saber, como diz a música. Mas algumas não se contentam com o platonismo e pagam para ver. Vazam do controle e se permitem. Parêntese.



Ímpios são os amores proibidos. Ímpios são os amores impossíveis. Amores que desafiam as regras, a moral, a ética, a religião, os costumes. Não são menos amores, qualitativamente falando. São proibidos de fora para dentro, pois de dentro para fora anseiam por jorrar, por se lambuzar, por suar, por gozar até o corpo ficar dormente. São desejos de qualquer amor legítimo, embora sejam ilegais, por assim dizer. Quem nunca desejou em uma dessas circunstâncias? Quem nunca se viu entre a irracionalidade do querer que manda se jogar e a razão controladora que diz para sossega o facho... LEIA MAIS...

O amor proibido tem sua mecânica: as hesitações, a sedução, o arrebatamento. Hesita-se enquanto se tem forças, na luta feroz entre o desejo e a razão. Seduz-se ludicamente porque a entrega é clandestina e homeopática. “Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo”, diz Proust. Arrebata-se ao nirvana quando a razão joga a toalha, vencida por nocaute ou por pontos. Aí começa.



“Não pode!”, diz a grossa voz da moral. “Como se querem pessoas que estão ligadas pela compromisso social a outras? Como ficam as outras?” Se entrar a razão no meio, a coisa morre. Por isso amores proibidos são irracionais. Exemplo: se uma das duas pessoas é livre e entra na roda-viva, ela acaba entregando sua liberdade em troca de migalhas de tempo, de possibilidades de arranjos, de esquemas, de encontros fugazes. A razão diz que isso não é vida. Mas para ela, que se entrega, está tudo bem. Há para compensar as loucas horas de Guilherme Arantes, com as quais ela vive a sonhar. É nelas que os clandestinos se amam feito dois animais, pois o breve tempo da permanência juntos pode ser o último tempo. Nunca se sabe. O sexo do amor ímpio é sempre o sexo da saideira. O tempo mínimo tem de compensar o desejo máximo. Ah,o submundo do amor clandestino… ruas ermas, estacionamentos de supermercados, motéis em horas insuspeitas, o ritual do apagamento de mensagens, o duplo comportamento numa casualidade de um encontro a três. Além, claro, de uma brutal capacidade de encenação da vida. É possível não ser você mesmo por muito tempo? Não sei…



Na conta do amor proibido, cobra-se o cuidado redobrado para não ter o delito desvendado. Dobram-se os cuidados com os olhos de ressaca que se entregam a uma certa distância, dengosos demais. Dobram-se os cuidados com a leitura pública do que está acontecendo. O público jamais poderá saber ou impiedoso escreverá a letra escarlate no peito dos ímpios. Esse é um amor ímpio e o seu preço é ser um amor só dos dois, sem registro, sem história escrita, sem história alguma, o que é uma tristeza medonha em se tratando de amor. Deletar é sempre a ordem. Da lixeira inclusive. Amores precisam de história.


Por isso, um dia acontece. A razão chega e quer por ordem na casa. Amores proibidos sempre estancam mais cedo ou mais tarde na sua encruzilhada: e agora? Seu ponto de interrogação é a frase do Gonzaguinha dita por um dos dois: “Eu preciso é ter consciência do que eu represento nesse exato momento”. Porque há de se querer mais espaço, há de se querer mais tempo, há de se querer mais atenção, há de se querer prioridade. A vida reclama uma história. Ser figurante sem nome na trama da vida é muito pouco para quem sonhou ser protagonista de uma história de amor blockbuster.



E agora? A lógica aponta dois caminhos: zerar tudo – com todas as dores envolvidas – e buscar o prootagonismo pleno ou continuar num amor sem passado e sem futuro, com breves e tórridos presentes – e esquecer desse papo de história. Não há receitas. A vida de cada um vem e não pede licença. Toda maneira de amor vale a pena, mas amar passa necessariamente por ser feliz. Se a infelicidade visita, há algo para rever, há rotas a alterar. Há quem, como Sêneca, implore para que se mate as chamas do amor ímpio no nascedouro: quem brinca com fogo, diz a sabedoria popular, pode se queimar. Mas há quem goste do calor dessas chamas ímpias. Pois então que elas sejam eternas enquanto durem. É uma questão de escolha. Como tudo na vida. Poetas ou filósofos: qual a sua?

 

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