quarta-feira, fevereiro 16, 2011

JOGUEM MINHAS CINZAS NO RIO TAPAJÓS


Santarém, ontem estive contigo
E pisei a terra arenosa
Dos teus translúcidos igarapés
E caminhei nas águas
Azuis e límpidas do teu rio
De quimeras!

Sim, o incrível rio Tapajós, tributo aos índios
De mesmo nome, contemporâneos
De Pedro Teixeira.
Foi daí que entendi a razão do poeta,
Seu êxtase, sua obsessão,
Sua rendição...

Conversei longamente com teus
Filhos jovens e idosos,
Todos orgulhosos de ti.
Falaram do teu passado apoteótico
E das tuas belezas naturais
Que são tantas e intraduzíveis.
Admirei sabê-los artistas e apreciadores
Das artes.
Intuí fosse pura coincidência,
Mas, as evidências mo venceram
E convencido aventuro-me a sugerir:
“Seria o azul hipnótico do teu rio
Ou a alvura celestial das tuas praias
O motivo de esfuziante inspiração?”

Quis saber o porquê da revolta
Dos teus filhos à expansão da soja
No teu solo de água e raízes
E as respostas me vieram rápidas
Como flechas e doídas como
A morte: “sangria à mata e seus mananciais;
O monopólio com suas mazelas;
O colono escorraçado de suas terras
E o poeta abatido sem versos de felicidade...”

E vi que estavam certos:
Foram-se os fósseis indígenas da Vera Paz.
Em seu lugar, aterro, galpões, concreto e ferro
E o egoísmo voraz e insaciável do capitalista
E os versos do poeta enterrados sob os
Escombros...

Percebi que muitos dos teus filhos
Já possuem consciência ecológica
E isso é um fato perceptível em todo
Este país, graças a Deus!
E assim, ainda que vagarosa e silenciosamente,
Entendem que a tua vocação é mesmo
Ser a rainha, tal como nossos pais e avós
Haviam vaticinado.
Por isto tua feição muda para melhor,
Embora os paradoxos acima relatados.

Mentes doentias, vontades pueris ou
Políticas vis arrancaram-te o mais
Valioso dos teus dotes: o Teatro Vitória!
Nefasto dia. Perda irreparável!
Chorou o poeta, chorou o artista, os teus
Jovens estudantes, todos choraram...



Ainda há tempo, Santarém, de resgatares maravilhas da
Tua história, do teu acervo cultural. Reconstrói
Das cinzas o teu bem maior e
Teus mortos dormirão em paz e
Teus filhos te serão eternamente gratos.

Santarenos, povo sábio, sensível, privilegiado
Por Deus, não deixais enlamear-vos pela ganância
Apressada dos invasores! Cresceis firmes no chão e
Mostrais ao mundo que nossos pais e avós estavam certos.
Mostrais sim, que Santarém veio dos céus
Para ser reverenciada e amada por seus filhos
E por todos que conseguem ver a importância
E o sentido da natureza para o homem.

E eu, um modesto enamorado, mas sincero,
Irredutível e fiel não canso de te decantar.
Só a morte pode abafar meu grito. E quando
Esse dia chegar, peço-te: deixa que joguem as minhas
Cinzas no leito tranqüilo do rio Tapajós!


Poema de : Paulo Paixão
Poeta e compositor santareno
Foto:  Rio Tapajós por Cesar Sousa


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