sábado, abril 09, 2011

CLARIDADE COIMBRÃ II



Enquanto espera, ela ajeita-se na cadeira, sente-se incomodada e excitada. Acende um cigarro e tenta distrair-se. À sua volta os homens olham-na com estranheza, talvez curiosidade. Foda-se, já uma mulher não pode estar sozinha ao balcão! Está desconfortável, descruza a perna e senta-se muito direita, o que será que ele lhe quer depois de tanto tempo? O empregado pergunta se ela quer alguma coisa: Sim, um shot de uísque, por favor! Não consegue decidir qual a cerveja para acompanhar.


Entretanto, ele chega. O andar desajeitado mas seguro, a mesma pele morena e olhos felinos. Algo está diferente, talvez o cabelo, talvez apenas a lembrança. Ele dirige-se para ela com um sorriso aberto ,mas reservado, aproxima-se e sem dizer nada inclina-se para lhe dar um beijo. O perfume penetra-lhe as narinas, é o mesmo! O mesmo cheiro que lhe ficou entranhado na roupa e na pele, durante tanto tempo. Ela sustém a respiração, sente uma onda de calor a atravessar-lhe o corpo, não consegue pensar com clareza.
Ele senta-se ainda sem dizer nada. Mas que raio, também não vou ser eu a falar! Servem o uísque, ele pede um gin tónico, ela pede uma cerveja preta.

Querias falar comigo? Sim... Ele não continua, ela olha para ele interrogativa. Lembrei-me de uma promessa que fizemos! Ela olha para ele com ar de espanto. Naquela altura foram feitas muitas promessas que não foram cumpridas, a qual se refere ele?



As bebidas são servidas, ela vira-se para o balcão, volta a cruzar as pernas, dá um último travo no cigarro, expira calmamente enquanto o apaga. Dá um gole no uísque e enquanto o malte lhe queima a garganta, o olhar dele queima-lhe o resto do corpo. Continuas linda...Gosta do que está a ver: o vestido preto a contrastar com os cabelos, o decote que nem porta entreaberta e as meias... sempre as ligas pretas, o salto alto é novo nela, mas assenta-lhe bem. Vais ficar a olhar ou vais dizer-me que promessa é essa? Não queria ser brusca mas está a ficar inquieta com o olhar calado, demasiado ocupado em despi-la. Prometemos que um dia dançarias para mim enquanto eu tocava para ti!



Ela lembra-se dessa promessa. Sim, prometemos e agora o que queres? Quero cumprir! Fazia sentido naquela altura, agora...Para mim continua a fazer o mesmo sentido, essa imagem não me sai da cabeça. Da dela, agora, também não. O uísque e a cerveja acalmam, mas nem tanto. Lembra-se tão bem dessa promessa! Foi feita na noite em que dançaram juntos a mais primitiva das danças. Na noite, em que ela sentiu o calor daquelas mãos a espalhar-se por todo o corpo. Na noite em que o sabor frutado daquela boca varreu cada centímetro de pele e se misturou com o sal do corpo dela. Na noite em que o calor dele a penetrou de tantas maneiras diferentes! Na noite que deixou o quarto pintado com gemidos e suspiros de prazer e êxtase. E no final, nús, a promessa...
Lembras-te dessa promessa? Na cabeça dela passaram-se horas.
 Sim...A voz sai rouca ao que ele sorri, reconhece aquela voz daquela noite. A mente volta a assentar no corpo que ela sente quente e a latejar, tenta recompor-se, sorri. As pernas tocam-se...Qual é a tua ideia? Ele coloca-lhe a mão no joelho e ela estremece. Ele sorri. A minha ideia é levar-te até casa, ao quarto. Quando chegarmos lá, vou sentar-me no sofá e antes de pegar a minha viola, vou tirar-te os sapatos...gosto dos teus pés. De seguida. vou tocar aquela música, que não é a melhor de sempre mas está lá perto, assenta-te bem. Aí, à minha frente vais dançar, como fazes sozinha no teu quarto ou quando pensas que ninguém está a reparar em ti.


Ela cora um pouco, baixa os olhos por instantes, tentando resistir à vontade que se impõe. Quando olha de novo para ele encontra o desejo reflectido. Ele sempre a excitou mas esta segurança é nova e redobra o calor que ela sente dentro dela. Gosto de cumprir o que prometo! As palavras soltam-se da boca dela, pesadas, carregando todas as promessas de prazeres adiados, com os murmúrios a gritar por mais que foram calados, com os beijos e carícias sossegados e a sofreguidão da certeza que esta talvez seja mesmo a última vez!


Texto emprestado de um dos blogs da vida...

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