quinta-feira, julho 07, 2011

ITAMAR, O POLÍTICO QUE DIZIA 'NÃO!'

Os conturbados, corruptos Anos Collor corriam velozes naquele início de década de 90. Durante a campanha eleitoral do PRN, Itamar Franco ameaçou renunciar uma, duas, três vezes ao posto de candidato a vice. De bom humor, digamos, ele, no fogaréu da ascensão collorida, não saia de Juiz de Fora e, ali, com um bico maior que o topete, ficava fechado em seu apartamento. Nas horas de mau humor, então, tudo poderia acontecer – e a renúncia sempre pareceu bem plausível aos que cobriam a campanha, especialmente a terceira ameaça.



As buscas de Itamar pela porta de saída da chapa quase deram resultado, mas Collor não as tomava a sério, evitava repercutir as reclamações. O jovem candidato ganhara o experiente político com seu discurso nacionalista. O fechamento da chapa foi decidido em uma visita não especialmente longa de Collor à Juiz de Fora, quando ele ainda era visto como o caçador de marajás. Collor queria Minas, como todo presidenciável quer, e Itamar podia dar-lhe um pedaço. Para Itamar, a aliança era a melhor aposta que ele poderia fazer, num eleição em que “todo mundo” era candidato.



O desenvolvimento da campanha, porém, o irritou muito, alijado de todo tipo de decisão estratégica. Collor fazia suas andanças sozinho, por cima dos políticos, das instituições, no centro de um núcleo alagoano que praticava a antítese de tudo o que Itamar acreditava. À altura da terceira ameaça de ir embora, a mais séria, o prazo para o registro de uma nova candidatura estava perto de estourar. Collor liderava as pesquisas, com Lula e Brizola cabeça a cabeça pelo segundo lugar. O próprio Itamar teve de parar para pensar duas vezes ou mais, apesar de todo o seu temperamento “mercurial”, como definiu a Veja. E ficou. Naquela reflexão, decidiu-se o futuro do Brasil.



Durante o governo de Collor, Itamar despachava discretamente do anexo do Planalto, onde fica o gabinete do vice. Seu silêncio reverberava. Significa dizer que ele não foi um vice falastrão e, neste sentido, o contrário, por exemplo, da maneira como José Alencar agiu com Lula, sempre reclamando dos juros etc. Itamar ficava quieto de raiva, por oposição e, diante do que se fazia à surdina em termos de corrupção entre a turma de Collor, por impotência, até. Ótimo leitor dos quadros políticos todos, Itamar percebeu, depois do fracasso do Plano Collor e da escala nos bastidores de gente como PC Farias, que aquele governo poderia, de maneira inédita, cair de maduro e ir para o seu colo.



O gabinete do vice fica no que parece ser um subterrâneo com jeito de bunker, do lado direito do Palácio do Planalto, com o teto abaixo do nível do piso do endereço presidencial. É a demonstração arquitetônica de que vice não está ali para mandar em nada. E para lá fui eu, entrevista marcada, ouvir o vice, num momento em que já se dava como certo que Collor iria para o brejo. As manifestações dos carapintadas empolgavam o País.



Quando entrei no grande gabinete do vice-presidente, Itamar estava atrás da mesa, com seu assessor de imprensa, Francisco Baker, que me arrumara o horário, a pouca distância, em pé. Baker acompanhou toda a conversa, praticamente uma não-conversa. Na boa, o vice estava meio irritado, para dizer pouco. Eu fazia perguntas, tentando ser direto, saber se ele já pensava em como seria o seu governo, e ele arregalava os olhos para o colega e dizia para ele: “mas essas perguntas são desrespeitosas, isso não está em questão, o sr. não deve me perguntar isso”, e por aí. Itamar, simplesmente, não iria dizer o que eu queria ouvir: malhação em Collor, sua contribuição para a campanha do impeachment, a estratégia de ação assim que assumisse o poder. Não falou nada, mas mandou servir um pão de queijo quentinho, daqueles que se desfazem na boca. Falando sério, foi o melhor que eu já comi na minha vida. Na dúvida, pergunte a qualquer um que já tenha sido recebido por Itamar o quanto ele mandava caprichar no pãozinho que representava sua ligação com o Estado que amava.




O tempo passou, Itamar assumiu e, um a um, foi colocando senadores em seu ministério. Ele queria se garantir no momento da ratificação, pelo Senado, da derrocada de Collor. Deu certo e ele fez o que fez. Em menos de dois anos de exercício do poder, estabilizou a instituição Presidência da República, suavizou as tensões na política e, especialmente, rearrumou a economia. De quebra, presidiu um plebiscito que soterrou de vez a aventura do parlamentarista e empurrou a indústria de automóveis para fazer o carro popular, sucesso brazuca, até hoje, de mil cilindradas.



A exemplo do que Sarney fizera, no princípio, com os autores do Plano Cruzado, Itamar bancou as experimentações dos artífices do Plano Real, dando todas as condições de trabalho para o penúltimo de seus ministros da Fazenda, o Fernando Henrique que dali saiu para uma eleição ganha de véspera.



Assim que a faixa presidencial foi transmitida, Brasília começou a ouvir a dúvida, vinda dos bastidores, em off, do governo FHC, do que seria feito “do chato do Itamar”. Ele passara a ser um problema. A contra-gosto, Itamar foi convencido a aceitar o cargo de embaixador do Brasil em Portugal. Dali, emitia, vez ou outra, uma provocaçãozinha, uma mensagem de infelicidade, uma crítica velada à vaidade do sucessor.



Fui escalado, pelo Estadão, para cobrir uma viagem, logo no início do governo, de Fernando Henrique a Portugal. Cheguei antes dele em Lisboa, tomei um taxi e fui para o aeroporto. No primeiro portão de segurança, o guarda português achou que eu estava num veículo oficial, algo assim, e nos deixou passar do lado de fora para uma área restrita. Imaginei que Itamar, embaixador, estaria na sala vip à espera do presidente, aguardando a hora de recebê-lo na pista. Desci do taxi próximo a um predinho, reconheci ali a sala vip e fui avançando, como seu fosse um diplomata, sei lá, sob as vistas dos policias que não me barravam. Subi um lance de escadas e, como eu previra, na sala estava, empertigado, sentado no sofá, o embaixador.
- Olá, presidente, o sr. me dá uma entrevista?
- Não!, fulminou ele, com aquele olhar arregalado que me lembrou a não-conversa no gabinete do vice.
- Fiz o mais difícil, presidente, que foi chegar até aqui, dois minutos...
- Não, não vou falar com o sr.!, disse, com clareza, olhar fulminante. Não era coisa de ator, era reação de quem preza o cerimonial. Verdadeira, portanto.



Respondi um ok, retornei à escada, agora de saída, e fui adiante. Não fiquei abalado. Eu sabia que seria muito difícil entrevistar Itamar assim, de sopetão, supreendendo-o. Com hora marcada, anos antes, ele já não falara nada. Mesmo assim, mantive, é claro, a ótima impressão de seu governo, de sua postura. Ele nunca foi deselagante, apesar de quase sempre ser duro com jornalistas – e também comigo. Itamar não foi de governar pela imprensa, como se diz, não vivia em palanques. Agia dentro do cerimonial, no ritual. Fez, assim, um governo brilhante no período mais adverso do processo de redemocratização. A amigos e colegas, sempre me senti isolado quando fiz minha defesa política do governo dele. E igualmente nunca me senti mal. Eu acreditava que o papel dele para a história só seria compreendido com o tempo, quando o veneno injetado pela mídia tivesse seu efeito diluído, entre outras coisas. Agora, está ai, as pessoas parecem ter acordado para a importância de Itamar e seu governo. Para entender melhor o que eu quis dizer, envio este link.


Marco Damiani

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