segunda-feira, dezembro 26, 2011

AUSÊNCIA


Eu deixarei que morra em mim
 o desejo de amar os teus olhos que são doces  Porque nada te poderei dar 
senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
 No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida   E eu sinto que em meu gesto 
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.  
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. 
 Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados 
 Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada   Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
 Eu deixarei...  tu irás e encostarás a tua face em outra face.   Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.  
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,  porque eu fui o grande íntimo da noite.  Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.   Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.   E eu trouxe até mim  a misteriosa essência do teu abandono desordenado.   Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
 Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
 Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.



De  acordo com  o site que acessei o texto é da autoria de Vinicius de Moraes

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