CADÊ O MEU PIRÃO

O comunicador Santino Soares "fabricando" farinha ....


Farinha é um dos alimentos que jamais pensei que pudessem me faltar na hora de comer. Mas que nada! Estou, nesta altura da vida, tentando encontrar um meio de agradar o paladar e preencher um permanente vazio no estomago. Já o conhecia de fome de verdade. Agora é diferente. Mesmo saciado, com bucho para arrebentar, e ele lá! À espera do quê? Da farinha.

Talvez para o povo dos dias de hoje, acostumado às guloseimas das mais diversas origens, formas e gostos nem saiba da importância da farinha na alimentação de um caboclo vivido e curtido nas beiradas de rios e nos centrões; nessas paragens onde há muito se descobriu a importância de Mani, fruto das desilusões de uma paixão que foi transformada em vida, lá pelos lados de Santarém.

Ainda curuminzinho, sem que os olhos estivessem abertos totalmente, já se intercalava o leite materno com uma papinha de carimã; alguns dias depois era mingau de farinha mesmo, que formaria o homem e a mulher de fibra, capazes de enfrentar endemias, bichos, sol direto no cocuruto, chuva de fazer tremer os ossos e todos os tipos de adversidades próprias deste imenso rincão amazônico. É claro que muitas vezes aquele mingau vinha rico com o vinho da bacaba, uma castanha, um pouco de leite do Amapá ou com legumes, principalmente o jerimum. De lamber os beiços!

Na mesa cabocla a farinha sempre foi o prato principal: farinha com peixe, farinha com carne, farinha com frutas. E ainda, para engrossar o caldo do peixe e da carne.

Até na doença que levasse o cidadão a uma fraqueza de matar o remédio era o caribé, que, como sempre foi proclamado, levanta até defunto.

Quando acabava a abundância da caça e da pesca, quando escasseava a coleta dos frutos, chegava a hora do irmão chibé. O tal era tão considerado que mesmo nas épocas das farturas o mesmo era servido como uma espécie de sobremesa.

Agora estes hábitos tão saudáveis estão severamente ameaçados pelo preço que o produto alcançou. Parece que muita gente pensa que o amarelo da cor da puba é ouro puro. Está mais cara que o frango e até mesmo que alguns cortes da carne bovina.

Num desses dias perdi um ouvinte do meu programa de rádio ao comentar que o preço da farinha estava me proibindo de cosumir o produto. Ele mandou-me uma mensagem demonstrando todo o seu desapontamento. Dizia ele: agora que estamos ganhando um dinheirinho com a nossa produção tu te danas a fazer propaganda contra? Não te ouço nunca mais. Não tiro a razão dele, e inconformado perdi a farinha e o ouvinte.

Entrevistei um técnico do governo e ele, como era de se esperar, me deu uma explicação técnica, afirmando que o preço da farinha um dia vai baixar. Eu espero que ele esteja certo pelo menos na última parte, pois dizer que o preço aumentou porque a produção caiu por causa das condições climáticas não me convenceu.

É claro que vivi a época em que uma terrível estiagem conseguiu secar as roças de mandioca e faltou farinha. Foi um tempo muito difícil. Da capital, Belém, madavam para o interior uma farinha que parecia mais uma massa de carimã, de tão fina. Não chegava a quebrar o galho, mas a gente ia comento. Um dia, porém, correu a notícia que pelas bandas de Oriximiná um bode teve o bucho arrebentado depois de comer um saco da surui e bebido água em seguida. Pronto, ninguém mais quis comer o pó que vinha da capital com medo de espocar como o bode.

Se pudesse me mudaria para o Norte da África, onde, segundo um amigo meu que mora em Paris, estão fabricando em abundância uma farinha de alta qualidade. Mas fico pensando: será que se pode confiar no gosto de um caboclo que está mais para francês?

Resta-me uma esperança: um decreto do poderoso governo mandando todos aqueles que até ontem cultivavam Mani e produziam a insubstituível farinha, voltem a fazê-lo. Poder para isso o governo tem. Então, valeria a explicação do técnico: quanto maior oferta de farinha, tanto menor o preço. 

Santino Soares
Radialista santareno. Ex locutor da Rádio Rural.
Atualmente militando na imprensa de Belém, onde reside.
Diga-se de passagem , Santino Soares é dono de uma das vozes mais maravilhosas que já ouvi na comunicação... e chamando meu nome... então... é demais!! rsrs

Lindo texto Santino. Parabéns!!

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