sábado, abril 27, 2013

UMA TRAGÉDIA INDÍGENA



Pistolagem, homicídio, suicídio, desnutrição, alcoolismo, racismo, narcotráfico, desmatamento e falta de terra. A expectativa de vida do maior grupo indígena do país é de 45 anos, só comparável à do Afeganistão.

Parece que as pessoas estão começando a se dar conta da problemática indígena neste país. Também, não é à toa. Depois das lideranças Guarani-Kaiowá enviarem uma carta ao governo e à justiça onde revelam a situação em que vivem e a intenção de cometerem suicídio coletivo por causa das ações praticadas por fazendeiros, pistoleiros e falta de atitude do governo Federal parece finalmente, que as pessoas entenderam que não se trata de mais um caso sem importância, que acontece lá, longe do alcance dos nossos olhos e da nossa culpa. No entanto são muitas as questões que precisam ser observadas nesse contexto.

A história dos índios do Brasil sempre foi crítica. Não é só o problema da terra, muito mais do que isso, e talvez o mais grave, seja a perda de sua história, o desvio antropológico de um povo que se vê cercado por paredes culturais remanescentes da colonização e não estou aqui falando da colonização do Brasil pelos portugueses, mas da colonização pragmática à sua vontade, que lhes impõem dogmas e conceitos que não são verdadeiramente seus. O trabalho de grupos religiosos que pregam uma religiosidade muito contrária, na verdade, aos ensinamentos mais clássicos do verdadeiro cristianismo disseminando um proselitismo religioso brutal, onde se substituí Tupã ou Nhanderú, por um Cristo e uma cruz que não lhes pertence.

As igrejas evangélicas em especial são as mais ardentes na luta ferrenha para aniquilar uma crença milenar que, verdadeiramente, se sobrepõe aos ensinamentos e as práticas pregadas. Essa luta é injusta e talvez seja a pior delas porque os índios simplesmente não podem argumentar sobre algo que desconhecem. Está em seu espírito e formação a religiosidade ritualística, o entendimento que as ações de Tupã se apresentam nas matas, nos rios e no ar. Como podem trocar seu Deus por outro que sequer lhe fez algum bem através de seus “enviados” que, por sinal, desrespeitam, ameaçam, punem. O deus Tupã ou Nhanderú não é punitivo assim.

De outro lado, falta ao governo entender que índios não são fazendeiros, não criam ou não deveriam criar gado, vivem basicamente e historicamente, da caça, da pesca, da coleta nas matas nativas daquilo que precisam para a sobrevivência da aldeia. Índio não tem despensa, não tem armário de cozinha e nem a cozinha. Crê fielmente que Tupã lhes proverá no dia seguinte e que o alimento não faltará, pois está ali, solto e livre como os próprios índios mas o homem branco está acabando com a fonte natural de recursos.

Não se coloca índios dentro de uma área demarcada esperando que eles consigam sobreviver da agricultura e ainda pior, não se retira aldeias e tribos de uma região para outra porque ali vai inundar por causa de uma usina hidrelétrica, vide Belo Monte, Jirau, Santo Antônio e tantas outras ou porque aquela terra está em disputa e é necessário aguardar a Justiça. Que Justiça?

Em 2007 fiz um documentário sobre o trabalho de alguns missionários na região oeste de Santa Catarina onde o povo guarani estava sob forte pressão de alguns políticos, sem lugar para viver, sem sequer uma expectativa de vida adequada. Viviam em uma área emprestada pelos povos kaigang, guerreiros, e se banhavam nas águas de um rio que continha imenso volume de dejetos de suínos, jogados por criadores que vendem sua produção para os grandes frigoríficos da região. Noventa por cento da aldeia tinha hepatite e o pior, um olhar perdido, procurando sem saber o quê e sem saber aonde. A cidade de Chapecó inteira está dentro de uma área indígena e os verdadeiros donos da terra vivem nas periferias rurais, em pequenas áreas demarcadas, tomando tiro quando alguma área lhes é devolvida.

Produtos utilizados em rituais sagrados são vendidos pelos próprios índios como peças de artesanato, o alcoolismo tem índices altíssimos e consomem a dignidade do ser humano, seja ele indígena ou não, e a expectativa de vida praticamente não existe tamanho número de ameaças e assassinatos.

Os indígenas estão perdendo sua condição essencial para poder sobreviver a todos os problemas que estão vivendo, a fé em sua própria verdade histórica, a sua identidade. Eles não estão sendo massacrados apenas pelos fazendeiros, mas também pela falta de ação do governo, pelas instituições religiosas e por eles mesmos ao se desencontrarem de si mesmos.

Infelizmente hoje existem também algumas aldeias ricas, com pick-ups, celulares, computadores. Há também a barganha, a troca que já existia na época dos Villas Boas, só que hoje custam bem mais caro do que os espelhos e arcos e flechas. As terras em troca de escolas, carros, um Deus por outro. Trocas de verdades que jamais serão assumidas e troca de condição de vida pela inevitável acomodação em futuras favelas. E a pior de todas elas, a troca da vergonha pela falta dela, provocada pela falta de dignidade levada pelo descaso de pessoas comuns como eu e você que está lendo esse artigo.



Régis Estevez é editor executivo do site Eco Reserva e produtor de documentários sobre o meio ambiente e questões sociais.


Fonte: Época

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