AS FÉRIAS DE JULHO NA MINHA INFÂNCIA...

Era julho e meu coração de criança feliz pulsava apressado uma doce expectativa...
As férias na casa da vovó Augusta, na comunidade de Mussum, no Município de Aveiro,  no Tapajós. Por lá era muito legal, tinha banho no Tapajós e festa de arraial. A festa da Padroeira Nossa Senhora do Perpetuo Socorro era tempo de celebrar. E junto da vovó era bom participar.

 As noites de novenas nas noites de festas e o regresso de canoa ao luar, era muito bom. Mesmo que existisse medo vovó estava lá para proteger, cuidar e se preciso fosse também para ralhar. E tudo naquele lugar tinha encanto e magia. A mesa da cozinha, as conversas regadas ao café sem cessar, só tinham sabor naquele lugar. As histórias contadas, as piadas que vovó adorava contar,  até mesmo  o som dos barcos vovó ficava a nos ensinar. De ouvidos ligados ouvindo um barco passar e era certeiro vovó a balbuciar: _ “ Fulano uma hora dessas. O que será que aconteceu"? – e bastava esperar pra gente perceber que era o fulano mesmo e algo tinha acontecido, para que naquela hora ele estivesse a navegar. E vovó com seu ouvido apurado jamais deixava passar um barco, dentro do paraná,  sem o identificar. E se o barco passava no rio era aprimeira a dizer: _ “ Lá vai o barco da linha”. Ou simplesmente dizia: “ _ Balsa de itaituba indo pra Santarém”. Ou vice versa. E era mesmo.


Assim ficávamos horas naquela mesa da cozinha da vovó. Lá não tinha hora e nem tampouco tempo ruim, tudo era muito bom. Até as bagunças que vovó fazia com a gente por uma marcação qualquer, que fizéssemos eram boas demais para gargalhar.  As histórias narradas e a fala de cada personagem sempre muito bem arremedada pela vovó,  que tinha na alma o  dom contagiante de imitar, e mesmo com seu jeito sério dava sempre um motivo para nos alegrar. Era ela, a vovó Augusta nossa guerreira e avó cuidadosa e verdadeira.


Quando ia de férias pro Mussum, ainda muito pequena fazia questão de ir pra roça com a vovó, que cedinho de arrumava, vestia sua roupa de trabalho, botava o panacu nas costas, pegava seu amolado terçado e seguia pro roçado, bem distante da beira do rio. Apesar da reprovação de mamãe eu sempre conseguia que a vovó me levasse e lá ia eu contente pra roça. Vovó ia na frente com seus passos apressados , mas me levando junto, diminuia os passos. E lá  íamos nós mata a dentro. E eu sempre indagando e vovó carinhosamente me tirando as dúvidas. Eu tinha medo de tudo da formiga taoca ao rugido de porco queixada. No entanto , nada disso me desestimulava a eu queria mesmo era ir pra roçado.


Lá na casa de farinha tinha igarapé pertinho e lá ia eu com vovó buscar água. A vovó levava um balde grande eu pegava um pequenino e ia com ela  pegar água. Foi lá que aprendi que o sapo quando é criança é bem negrinho e se chama girino. Pois quando os vi pela primeira vez,  no igarapé, disse: “ _olha vovó, esses peixinhos” . E depois de uma gargalhada ela disse: “ _ deixa de ser besta Lia isso é sapinho. Só que é chamado de girino”.


Outra vez sai da casa de farinha e fui olhar a roça a alguns metros da barraca e ao ver um animalzinho gritei: “ _ Olha vó, um coelhinho. E ela tecendo umas  palhas, olhando e rindo me disse, deixa de ser besta menina isso ai é um viadinho”. Isso foi demais ficou em minha mente para sempre. E na dela também que me zuava sempre que lembrava. 


Foi com ela, a vovó,  que aprendi a  tomar açaí sem acuçar com farinha puba quetinha. E diga-se de passagem, minha vó fazia a melhor farinha daquela região, tinha sabor de castanha e não tinha outra igual, não pra mim. Foi com vovó que aprendi a valorizar as coisas simples, assim como um bom cafezinho na casa dos amigos, um jantarzinho só com caldo e farinha, ou mesmo um pedaço de carne de anta salmorada com pirão de farinha na casa da afilhada Neide, após numa noite de novena. Ah, foram tantos momentos, tantas histórias. Depois cresci me tornei adolescente e os cuidados se redobravam e nas festas da padroeira vovó estava sempre ligada e namorar ? Nem pensar. Só se a poronga dela estivesse apagada. Assim era minha vó, uma mulher  firme e protetora. Com ela aprendi a rezar nas novenas, a prestigiar os leilões e comer na barraca da festa era, pra nós, uma tradição.

Vovó guardava uns bombons em latas de leite ninho e na festa nos brindava com os bombons que eram os mais doces do mundo, de sabor indecifrável. Tinha sabor de amor, por isso o doce se multiplicava. Ganhar um antes da procissão era uma delícia sem igual.


E os passeios na Consciência? Consciência era o nome da grande canoa da vovó. Era uma canoa enorme e na faia era vovó toda forte que remava. Esses passeios na Consciência eram os melhores do mundo, principalmente,  quando íamos visitar dona Maria dos Anjos do seu Jurema e comadre Lalinha, na casa de seu Domingão. Ou até mesmo,  uma visita rápida na casa de dona Socorro ou mesmo nas casas de seu Bebê e Manezão eram bons demais.


Em minhas lembranças me veio uma uma vez em que fui sozinha, sem mamãe,  para casa da vovó. Estava lá e tudo era uma festa completa até acabar os pães, o leite e a manteiga que tinha levado. Logo que terminou a despesa comecei a chorar e querer voltar para Santarém. E vovó pediu que meu tio me trouxesse, só que neste dia caiu um grande temporal. Na hora de vir, agarrei na saia dela e com medo pedi para voltar, pois o barco ia afundar. E depois do caso passado e haja vovó me avacalhar. Era assim a minha vó. Forte, brava, guerreira, de muita fibra.Ao mesmo tempo uma mulher doce, alegre e divertida. Dela herdei esse jeito de ser  forte, protetora  e ao mesmo valente em defender minhas causas.


O tempo passou. Deixei de ser criança. Vieram os compromissos, responsabilidades.As férias de julho foram ficando mais escassas  O tempo de ir ao Mussum, muito mais...As viagens e encontros mais raros ainda. No entanto, ainda tive muitos grandes momentos junto de minha querida vovó, graças a Deus. Em minhas noites de férias, o cheiro da fumaça de seu cachimbo era diferente, sem outro igaual. Eu detesto cigarro, mas aquele cheiro era diferente, era especial e não é que  eu gostava. Entre os intervalos de  cada pitada no cachimbo  um pouco de história contada, por aquela mulher tão sábia. Assim eram as noites de férias no quarto da vovó cheio de gente onde todo mundo se amontoava, só para ficae bem mais perto dela. Por último, até meu filho já era mais um apixonado pela casa da vovó e junto dela ele também pôde desfrutar de grandes momentos. 


As últimas vezes,  já adulta, pude ir visitar a vovó e junto de outros primos tudo continuava muito divertido. O jeito de meu primo Francisco Sérgio a gracejar com ela, a chamando negona e um dia de gaiatice quase ela lhe acerta um tapa, de brincadeira e só serviu para gente junto com ela dar boas gargalhadas ao redor daquela mesa cheia de comida e abençoada.

As ocupações e responsabilidades, muitas vezes,  nos roubam de junto de pessoas que tanto amamos e o tempo fica sempre pra depois. Hoje ao saber da morte de minha vó querida muitas coisas me vieram na lembrança. Inclusive a tristeza de não ter feito tempo para ficar mais tempo perto dela e aproveitar cada lição de vida que ela tinha a me ensinar.


Porém, apesar desses sentimento de alienação e  distância preciso dizer que tinha vovó como um grande exemplo de vida com suas brincadeiras, sabedorias e histórias Uma grande mulher!! 


Sei que ela se enchia de orgulho e emoção em cada vez que me ouvia falar na Rádio “Rurar” como ela falava. Ela era ouvinte assídua da Rádio Rural e fazia qualquer coisa para ouvir o programa  do “Sinvar” e a programação da Rádio Rural.


Ontem  minha vó se despediu e se foi morar com Deus. Deixando em meu coração e de todos nós um legado de sabedoria e grandes ensinamentos, .cima de tudo muitas saudades. 


Aquele lugarejo jamais será o mesmo sem a doce presença daquela mulher de passos dançantes, de saia grande e colorida,  que estava sempre a nos esperar em cada vez que um de nós chegava lá para a visitar. Aquela mesa da cozinha então, jamais terá o mesmo sabor , nem tampouco o calor e magia que tinha junto daquela mulher tão vó e amiga. Aquela mulher que sorria em cada chegada e que chorava em cada despedida  de nós.


Obrigada vó querida por tudo que me ensinou com tanto amor. Desculpe se nos últimos tempos não me fiz tão presente, mas saiba de uma coisa. Você será inesquecível e em meu coração você já está eternizada. Te amo,  vó querida. Em meu coração você vai continuar viva, no remanso suave do Tapajós, no aroma do igapó, no sabor da farinha de mandioca, no café de cada manhã, enfim em todos os dias da minha existência  Descanse em paz, vó querida!!!

Saudades eternas

Da sua neta


Lia

Socorro Carvalho a sua “ mulher do tempo de todas as tardes”

Comentários

  1. Não convivi com minhas avós por mudar em países diferentes!
    Mas tive o privilégio de conviver com meu avô paterno que faleceu aos 107 anos!
    boa noite!

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  2. Anônimo12:02 PM

    Lembro daquelas fotos que todos gostavam de ver naquele binoculo pequenino. lembram? E vovó nos ralhava quando nos pegava mexendo em suas caixas...nossa avó exemplo de mãe e mulher de fé!

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