terça-feira, fevereiro 15, 2011

EGO E PERDÃO...


"A chave para a tristeza é viver com a mente focada no passado ou no futuro"

Perguntaram ao Osho: Por que é tão difícil perdoar, deixar de se apegar a mágoas que já passaram?

A resposta dele: O ego existe na infelicidade e, quanto maior a infelicidade, mais alimento o ego recebe. Nos momentos de plenitude, de alegria, o ego desaparece totalmente, e vive-versa: se o ego desaparece, o estado de plenitude começa a banhar você. Se você quiser permanecer no seu ego, você não poderá perdoar, não poderá esquecer, particularmente as suas mágoas, as feridas, os insultos, as humilhações, os pesadelos. Não apenas você não poderá perdoar, mas os exagerará, os enfatizará. Você tenderá a se esquecer de tudo o que foi belo em sua vida, não se lembrará dos inúmeros momentos alegres; no que se refere ao ego, esses momentos não têm nenhum propósito. A alegria é como veneno para o ego, e a infelicidade é como vitaminas para ele.

Você terá de entender todo o mecanismo do seu ego. Se você tentar perdoar, esse não é o perdão verdadeiro. Com uso do esforço, você apenas reprime. Você pode perdoar somente quando você entende a estupidez de todo o jogo que segue em frente dentro de sua mente. O absurdo total de tudo isso precisa ser percebido completamente; se não for assim, você reprimirá de um lado, e ele começará a vir de um outro lado; você reprimirá de uma forma, e ele se afirmará de uma outra forma, às vezes de uma maneira tão sutil que é praticamente impossível reconhecer que se trata da mesma velha estrutura, tão renovada e decorada que parece praticamente nova.

O ego vive no negativo, pois ele é basicamente um fenômeno negativo; ele existe ao você dizer "não". O "não" é a alma do ego. E como você pode dizer não para um estado de plenitude? Você pode dizer não para a infelicidade, para a agonia da vida, mas como você pode dizer não para as flores, para as estrelas, para os pores-do-sol e para tudo o que é belo e divino? E toda a existência está repleta dessas coisas, ela está repleta de rosas, mas você insiste em apanhar apenas os espinhos, pois tem feito um grande investimento nesses espinhos. Por um lado você diz: "Não, não quero essa infelicidade!", e por outro lado insiste em se apegar a ela. E por séculos lhe disseram para perdoar.

Mas o ego pode viver por meio do perdão, pode começar a ter um novo alimento graças à seguinte idéia: "Eu perdoei, perdoei até mesmo meus inimigos. Não sou uma pessoa comum". E lembre-se perfeitamente bem: um dos fundamentos da vida é que a pessoa comum acha que não é comum; a pessoa média acha que não está na média. No momento em que você aceita a sua ordinariedade, você se torna extraordinário; no momento em que você aceita a sua ignorância, o primeiro raio de luz penetra em seu ser, a primeira flor desabrocha e a primavera não estará distante.

Jesus diz: "Perdoe seus inimigos, ame seus inimigos". E ele está certo, pois, se você puder perdoar os seus inimigos, você ficará livre deles; do contrário, eles ficarão a assombrá-lo. A inimizade é um tipo de relacionamento; ela entra mais fundo do que seu pretenso amor.

Ainda hoje uma outra pessoa me perguntou: "Osho, por que um caso de amor harmonioso parece ser monótono e decadente?". Pela simples razão de ele ser harmonioso! Para o ego, ele perde toda a atração; parece que ele não existe. Algum conflito é necessário, alguma contenda é necessária, alguma violência é necessária, algum ódio é necessário. O amor, o seu pretenso amor, não vai muito fundo; ele tem a profundidade da sua pele, ou talvez nem seja tão profundo. Mas o seu ódio vai muito fundo, tão fundo quanto o seu ego.

Jesus está certo quando diz: "Perdoe", mas ele foi mal interpretado por séculos. Buda diz a mesma coisa, e todas as pessoas despertas fatalmente dirão a mesma coisa. A linguagem usada pode diferir, eras diferentes, épocas diferentes, pessoas diferentes... Naturalmente elas precisam falar linguagens diferentes, mas o âmago essencial não pode ser diferente. Se você não puder perdoar, isso significa que você viverá permanentemente com os seus inimigos, com as suas mágoas, com as suas dores.

Assim, por um lado você deseja esquecer e perdoar, pois a única maneira de esquecer é perdoando; se você não perdoar, você não poderá esquecer. Mas por outro lado, há um envolvimento mais profundo, e, a menos que você perceba esse envolvimento, Jesus ou Buda não serão de ajuda para você. As belas afirmações deles serão lembradas por você, mas não se tornarão parte do seu estilo de vida, não circularão no seu sangue, em seus ossos, em sua medula, não serão parte do seu ambiente espiritual; essas afirmações permanecerão alienígenas, algo imposto de fora; belas, pelo menos elas têm apelo intelectual, mas existencialmente você continuará a viver da mesma maneira de sempre.

O primeiro ponto a ser lembrado é que o ego é o fenômeno mais negativo da existência, como a escuridão. A escuridão não tem existência positiva; ela é simplesmente a ausência de luz. A luz tem uma existência positiva; é por isso que nada pode ser feito diretamente com a escuridão. Se o seu quarto estiver repleto de escuridão, você não poderá colocá-la para fora do quarto, não poderá jogá-la fora, não poderá destruí-la diretamente por nenhum meio. Se você tentar lutar contra ela, você será derrotado. A escuridão não pode ser derrotada pela luta direta. Você pode ser um grande lutador, mas ficará surpreso ao saber que não pode derrotar a escuridão; é impossível, pela simples razão de que a escuridão não existe. Se você quiser fazer alguma coisa com a escuridão, você terá de fazer via luz. Se você não quer a escuridão, traga a luz; e, se você quer a escuridão, apague a luz. Mas sempre faça algo com a luz; nada pode ser feito diretamente com a escuridão. O negativo não existe, e assim é o ego.

É por isso que eu não sugiro que você perdoe; não digo que você deveria amar e não odiar, não digo para você abandonar todos os seus pecados e se tornar virtuoso. A humanidade sempre tentou tudo isso e fracassou completamente. Meu trabalho é totalmente diferente; eu digo: Traga a luz para o seu ser, não se preocupe com todos esses fragmentos da escuridão.

E o ego está no próprio centro da escuridão; o ego é o centro da escuridão. Você pode trazer a luz, tornar-se mais consciente, mais alerta, e o método é a meditação. Se não for assim, você ficará reprimindo, e tudo o que é reprimido precisa ser reprimido repetidamente, e esse é um exercício inútil, completamente inútil. O que foi reprimido começará a aflorar a partir de um outro lugar; ele encontrará algum outro ponto mais fraço em você para se expressar.

Você pergunta: "Por que é tão difícil perdoar, deixar de se apegar a mágoas que já passaram?". Pela simples razão de que elas são tudo o que você tem. E você insiste em jogar com suas velhas feridas, de tal modo que elas permaneçam frescas em sua memória. Você nunca permite que elas se curem.

Um homem estava sentado em um compartimento de um trem, e à sua frente estava sentado um padre com uma cesta de piquenique a seu lado. O homem não tinha mais nada a fazer, e então ficou observando o padre.

Depois de algum tempo o padre abriu a cesta de piquenique e pegou uma pequena toalha, que colocou cuidadosamente sobre os joelhos. Então ele pegou uma tigela de vidro e a colocou sobre a toalha; depois pegou uma faca e uma maçã, descascou-a, cortou-a e colocou os seus pedaços dentro da tigela. Então ele pegou a tigela, ergueu-a e jogou os pedaços da maçã pela janela. Depois ele pegou uma banana, descascou-a, cortou-a, colocou na tigelae jogou-a pela janela. Fez o mesmo com uma pêra, com uma pequena lata de amoras e abacaxi e um vidro de creme, jogando-os todos pela janela depois de prepará-los cuidadosamente. Então ele limpou a tigela, chacoalhou a toalha e colocou-as de volta na cesta de piquenique.

O homem, que assombrado observava o padre fazer isso, finalmente perguntou: "Desculpe, padre, mas o que você estava fazendo?"

Ao que o padre calmamente respondeu: "Uma salada de frutas".

"Mas você jogou tudo pela janela!", exclamou o homem.

"Sim", disse o padre, "eu detesto salada de frutas!".

Na vida, as pessoas insistem em carregar coisas que detestam. Elas vivem em seus ódios, ficam cutucando suas feridas para que elas não sarem, não permitem que elas sarem; toda a vida delas depende de seu passado.

A menos que você comece a viver no presente, você não será capaz de esquecer e de perdoar o passado. Não sugiro que você deva esquecer e perdoar tudo o que aconteceu no passado; essa não é a minha abordagem. Eu digo: Viva o presente! Essa é a maneira positiva de abordar a existência: viver o presente. Essa é uma outra maneira de dizer para você ser mais meditativo, mais consciente, mais alerta, pois quando você está alerta, consciente, você está no presente.

A consciência não pode estar no passado e não pode estar no futuro. Ela conhece apenas o presente; ela não conhece nenhum passado e nenhum futuro e tem somente um tempo, o presente. Esteja consciente, e à medida que você começar a desfrutar o presente mais e mais, à medida que sentir o bem-estar de permanecer no presente, você deixará de fazer essas coisas estúpidas que todos insistem em fazer. Você deixará de ficar entrando no passado e inevitavelmente esquecerá e perdoará; isso simplesmente desaparecerá por conta própria. Você ficará surpreso: para onde isso foi? E uma vez que o passado deixe de existir, o futuro também desaparecerá, pois o futuro é apenas uma projeção do passado. Livrar-se do passado e do futuro é saborear a liberdade do presente pela primeira vez. E nessa experiência a pessoa fica mais inteira, saudável, todas as feridas são curadas. Subitamente não há mais nenhuma ferida; você começa a sentir um profundo bem-estar surgindo em você. Esse bem-estar é o começo da sua transformação.


Fonte: Osho, Alegria: A Felicidade que Vem de Dentro, Editora Cultrix, 2006. ISBN 978-85-316-0887-2.

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