SER MÃE - POR LÍLIA COLARES


Esse é o primeiro dia das mães sem a presença física do meu filho. Tenho refletido muito sobre o que aconteceu desde abril de 2010, quando foi diagnosticado Leucemia Linfóide Aguda em meu único filho, e culminou com sua passagem para o mundo espiritual em 19 de junho de 2010. Desde então, tenho ouvido constantemente duas perguntas. A primeira é feita por pessoas que não me conhecem intimamente: Você tem filho? Já a segunda é feita pelos conhecidos, os mais chegados: Você ainda vai ter filhos?



Para a primeira pergunta tenho uma resposta: Tive um filho, um menino, o Lucas. Que é luz em minha vida. Sinto-me mãe e assim serei para sempre. Mãe de um filho que pude acompanhar em todas as fases. Vivemos intensamente todos os momentos, os quais guardarei para sempre comigo em meu coração, em minha mente, em minha vida. Foram momentos que se eternizaram e que na hora da saudade eles vêm como um filme. Um filme bom, um filme vivido, um filme real. Um filme que está eternizado.



Para a segunda, respondo: Sempre quis ser mãe, mas uma mãe presente, amorosa que fosse capaz de educar com amor e com firmeza ao mesmo tempo. Meu objetivo era engravidar tão logo terminasse minha graduação. Conclui meu curso em março de 1996 e no mês seguinte, abril de 1996, engravidei. Lucas nasceu em 18 de janeiro de 1997. Era isso mesmo que queria e assim o fiz. Anselmo, meu esposo, não queria muito ser pai, mas quando soube da notícia ficou feliz, me deu total apoio e me ajudou na educação do Lucas desde quando ainda estava em meu ventre. Anselmo é pai dedicado, amoroso e companheiro, embora exigente. Mas o resultado foi muito bom. Quem conheceu Lucas, viu o menino especial que era em tudo. E isso não é coisa de mãe coruja. Enfim, respondendo a segunda pergunta, digo: Não pretendo engravidar de novo, foi esta a minha decisão quando Lucas estava fisicamente conosco nunca quis e continuo com o firme propósito. Já tive o filho que sempre quis. Sei o que é ser mãe. Sou mãe, para sempre.



Lembro-me quando Lucas estava hospitalizado e que precisou fazer uma transfusão de granulócitos. Somente eu era compatível para fazer tal procedimento. Anselmo ficou triste por mim, uma vez que o procedimento era muito doloroso e ele não podia ajudar diretamente o nosso menino pois seu sangue não continha todas as propriedades necessárias para a transfusão. Quando fiz a doação ao Lucas ele me falou: Obrigada mamãe, agora você vive para sempre em mim. Eram seus últimos dias, foi como se ele tivesse me dizendo eu vou, mas você vai dentro de mim, te levarei comigo. Eu senti que isso o tranqüilizava. Mas o fato é que Lucas vive em mim, vive no Anselmo, vive em todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo e aprenderam a gostar do menino centrado, amável e educado que sempre foi.



No começo, quando Lucas transcendeu, eu ficava pensando que talvez a dor fosse passar, mas um amigo meu me disse com firmeza e seriedade: Lília, essa é uma dor que você carregará para o resto de sua vida, mas isso não a impedirá de ser feliz. E desde então eu carrego a minha dor, a minha saudade de uma maneira consciente. Sozinha eu não seria capaz de perceber isso e eu sofreria muito mais. Essas palavras foram sábias para que eu possa viver o resto dos meus dias com dignidade. Sem dúvida, ter essa consciência é significante e ameniza meu sofrimento. Ajuda-me a viver de uma outra forma. Tive o privilégio de compartilhar diversos momentos com o Lucas, esses sei como foram, sei até como ele reagiria em algumas situações. Outros que não vivi efetivamente e que sei que nunca acontecerá, ao menos aqui na terra, aprendi a sentir o prazer que seria tê-lo a meu lado. Isso é transcender. Somente desta forma, creio eu, pode-se ter a sintonia de corpo e alma. Saber viver o prazer que seria é o segredo que temos que tentar aprender e a conviver.



No dia 01 de abril de 2011 assistir o filme As Mães de Chico Xavier. O que mais me chamou a atenção foi a maneira de como as mães que perderam seus filhos lidavam com a situação. Umas mais fortes, outras nem tanto. Havia desespero em algumas e a aparência de apatia em outras, mas na hora da saudade todas choravam. Quando iam ao encontro do Chico Xavier havia uma única esperança. A esperança de ter notícias do filho. São momentos de esperança, de aflição e ao mesmo tempo de contentamento. É bom saber que a vida de um filho não acabou, melhor saber ainda que ele foi para uma outra dimensão, na qual os sofrimentos do corpo não mais existem. O grande desafio é aprender a lidar com a ausência. A conviver com o invisível, com a falta do diálogo e do contato afetivo com o filho. Temos que aprender a saber ouvir, a sentir, a decifrar o nosso coração. E, nos momentos de dor saber ter como foco a saudade boa, as lembranças felizes e, sobretudo saber agradecer por todos os momentos vividos com o filho. Isso é ser grande, é ser mãe.


É tarefa possível apenas para quem consegue ser grande na alma, no sentimento, no coração. Sem desconsiderar as qualidades dos homens que assumem, de fato, a paternidade, tenho certeza que essa é uma das virtudes que as mães desenvolvem com mais intensidade. Aquela frase que “ser mãe é sofrer no paraíso” agora ganha sentido. Isto porque, por maior que seja a alegria que eu viva, e por mais intensa que seja a felicidade que eu sinta, haverá sempre uma dor, a dor da ausência física do filho. Mas também haverá a esperança de reencontrá-lo, o conforto de saber que amei, que amo, que fui e sou amada.


O cordão umbilical foi cortado no dia 18 de janeiro de 1996, o corpo físico foi afastado dos meus olhos em 19 de junho de 2010, mas a essência do Lucas permanece, seu espírito imortal e eterno está junto a mim, vivo e único. O amei antes de vê-lo e de senti-lo. O amei intensamente no convívio terreno, e o amo incondicionalmente agora e sempre. Por tudo isso, sou mãe, continuo sendo, e sempre serei.



Santarém/PA, 07 de Abril de 2011
 
* Lília Colares  é esposa do grande companheiro e educador Anselmo Colares.

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