sexta-feira, janeiro 18, 2013

IDÍLIO DO INFINITO



Era costume, em Santarém, as famílias sentarem-se à porta da rua de suas casas, nas noites quentes de verão, para aproveitarem a fresca, amiga, agradável. E nas noites enluaradas, iam à praia, onde o vento leste, acariciante, contribuía para que a reunião familiar fosse mais aconchegante ainda, graças ao ambiente de lua, praias, risos e rios. E a praia preferida era a do Trapiche, onde se podia ver, nessas noites maravilhosas, dezenas de pequenos grupos, cada grupo reunindo uma família. Cantava-se, tocava-se violão, bandolim; namorava-se, as crianças riam, corriam, brincavam de roda, de cipó-queimado, de cabra-cega. Riam mais ainda quando na brincadeira de cobra-grande o rabeira desprevenido, dava, sem o querer, com roupa e tudo, um mergulho no Tapajós. Era a alacridade, essa alegria sadia, própria da criança e da juventude santarena.

A noite era de plenilúnio e José Agostinho foi à praia, também. E estando lá, põe-se a andar, de lá para cá, para melhor apreciar o luar e a brisa daquela noite, que estava gostosa, demais. De repente, teve a sua atenção despertada por sons vindos de um grupo que se destacava dos demais pelo maior número de pessoas que o formava. Eram sons de clarineta, violino, bandolim e violão. E dele foi se aproximando, devagar, hesitante, até ouvir uma voz grave, vinda do grupo, com a pergunta a si dirigida:

– Quem és?

Antes que respondesse, um jovem, quase menino ainda, disse:

– Ouvi falar que é irmão colaço de um filho do Desembargador Chaves, papai.

– O que fazes? – indagou a mesma voz.

Ia responder quando outra jovem antecipou-se:

– Ouvi o Dr. Anysio dizer que até bem pouco foi primeiro clarineta e requinta da banda de música do Instituto Lauro Sodré.

– Então, és bom músico, meu rapaz! – comentou o dono da voz grave – e o convidou para que participasse da reunião com amistoso:

– Chega-te, meu jovem!

Após insistente convite para que mostrasse sua arte, José Agostinho examinou e experimentou uma velha clarineta que lhe puseram nas mãos, virou-se para os rapazes que tocavam violão, pediu ré menor e tocou um schottisch desconhecido para aquela gente, que o escutou silente e admirada. Ao final, após costumeiros bravos e palmas dos presentes, o homem de voz grave perguntou-lhe:

– De quem é esse lindo schottisch?

– É meu – respondeu meio encabulado.

– Então, és compositor?

– Pretendo sê-lo.

– Pretendes, como?

– Acontece que desde que aqui cheguei – respondeu José Agostinho – comecei a sentir que se desenvolvia dentro de mim a melodia de um schottisch, que acaba de nascer.

Perplexo, diante da surpreendente revelação, perguntou-lhe:

– Já tem nome?

José Agostinho, após fitar, novamente, a moça de pele alva, olhos azuis e cabelos dourados, a mesma que vira, graciosa, exibindo lindo vestido azul, que exigia espartilho e anquinhas, dias antes, no baile que serenava e que desde o primeiro instante, na praia, não tirava seus olhos azuis dele, respondeu:

– Sim, já tem nome, inspirado agora, IDÍLIO DO INFINITO.

– Belo nome para um bonito schottisch, comentou o bom homem de voz grave.

A seguir, mais descontraído, José Agostinho pediu o bandolim que uma jovem segurava e tocou uma cavatina. Voltou à clarineta e executou outra música. Tocou violino e, como instassem, acompanhou ao violão uma jovem santarena que cantou uma canção francesa em francês, muito chique na época. E tocou até os últimos minutos da noite para uma pequena multidão de curiosos e apreciadores da bela arte. É que, desde o primeiro instante, os vários pequenos grupos de famílias deixaram de existir, pois se transformaram num grande grupo para, juntos, admirarem a virtuosidade do jovem músico.

A noite foi linda, muito linda. Noite de dezembro, de lua cheia. Noite de céu aberto, de praias alvas, prateadas. Noite de risos e rios rebrilhantes. Noite aconchegante, noite para amar. Noite de serenata, noite santarena…

Noite especial, de significado profundo para todos nós santarenos, noite criada por Deus para nela nascer a primeira dentre aquelas que, mais tarde, com certo orgulho, se convencionou chamar Música Popular Santarena: Idílio do Infinito.

(Wilmar Dias da Fonseca, no livro “José Agostinho da Fonseca: O Músico-Poeta”, Imprensa Oficial do Estado do Pará, 1978, Belém/Santarém-PA, p. 27/30).

O texto foi retirado do Blog Wilson Fonseca - Centenário
A foto do face do Emanuel Júlio, mas de autoria da empresária santarena Vânia Maia

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